4 de agosto de 2008

Instrumentado

Quando perante o óbito o humano ancestral, primitivo, projectou o inicio da espiritualidade e com ela a sua diferenciação face aos outros “mamíferos”. O funeral foi uma das primeiras praxis e deu início à “humanização”. O rito funerário, a noção da perda, a “existência”, a ascese, a crença, a fé, são noções que nascem da constatação do “outro” eu, do “outro” metafísico, etc. Salvo um pequeno exagero posso afirmar que a “Humanidade” também nasceu pelo amor .

Quando perante um óbito o humano moderno, contemporâneo – este – agora – que se compreende entre esta mudança acelerada de civilizações – projecta o início da “Desumanização”. O rito funerário é substituído pela festa colectiva, pela "homenagem" de pertença a "grupos", pelo impessoal. Um ritual "apinhado" de nada. Salvo um pequeno exagero posso afirmar que a “Desumanidade” está a nascer pela ausência de valores. A culpa não é das “guerras”, dos “computadores”. Do “Mundo”. A culpa é do homem e que eu saiba um Homem é constituído por valores (o resto é água)! Virá o tempo das “próteses” – das próteses totais, pouco falta para sermos o tão desejado Homem-Máquina-imortal – . Virá o tempo de novos ritos. Os ritos dos regimes mecânicos. Salvo outro pequeno exagero posso afirmar que a “montagem” do Novo-Homem já começou. E já estamos na fase das próteses-mentais, em montagem regimental: homem máquina-obediente, sem pensamento para além da ginástica pontual, sem fé, sem rusticidade guerreira, sem tempo, sem memória. Salvo um outro pequeno exagero posso afirmar que tudo o que escrevi é visível. Basta abrir os olhos, ouvir e ver. Prefiro ser um humano-primitivo. Penso por mim. Ajoelho-me pela minha fé. Choro pelos meus avós antepassados. Choro pelos desígnios. Pela minha pátria. Choro, também, por amor. Escrevo, isto, numa máquina mas ela nunca fará parte de mim nem eu aceito ser “instrumentado”.

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