29 de janeiro de 2009

Honra perdida*


O 25 de Abril de 1974 foi feito com a esperança. A esperança que existia no coração e alma dos portugueses e que perdurava, à espreita, desde 1910. É um facto. O regime de Salazar de tão mau, tão "mau", não nos havia eliminado isso. A III República fez emergir à tona os novos-homens-politicamente-avançados que tanto purgaram pela "liberdade". Esses indivíduos, afinal, revelaram-se homens sem esperança, porque nada ousaram construir a não ser distribuir. É a honra perdida da República. Em 2009, olhamos para trás e o palco é pequeno demais para a plateia, a peça desmotivante demais para os espectadores. 35 anos de enredos promíscuos e lamacentos conseguiram retirar a esperança a um povo que já foi nação e que não é mais do que uma República, desintegrada da sua história, agora conduzida por estímulos partidários e materiais cuja rede sustenta parte da população, já de si confusa e oscilante. A III República gerou abutres sem integridade. Se é verdade que a República foi "implantada" por aqueles que se sentaram no "banco de escola" da monarquia hoje é mais verdade que a República está a ser destruída por aqueles a quem nunca foi dado um "banco de escola" para se sentarem.


*título retirado do blogge Nova Floresta

28 de janeiro de 2009

Milk & Honey ao Bloco

Dos EUA chegam novas, permanentemente. Da confrangedora  e imoral especulação bolsista que está a tinir o "mundo civilizado" aos sucessos da investigação de robôs-militares; do mister Obama à "gay-freedom"; do céu ao paraíso. Uma nova Civilização deve por estes dias começar. Deixemo-nos centrifugar. Substitua-se o "futebol" pela adoração desta matiné dourada a listas e estrelinhas. Substituam-se os nossos valores. Como estamos atrasados! Coitadas das nossas futuras gerações, tão aquém desse além-mar! Por acaso Portugal já gerou um ente como o senhor Obama? ou um senhor Milk? – esse ícone da "militância" Gay-Lésbica- Bissexual-Transgender? – Anda Bloco à esquerda... não queriam mas é de lá, da terra dos cowboysgirls, que vêm as vossas referências, toca a centrifugar isto....

Dos climas propícios de Davos ao "clima" de 1910

(Davos, 1895; à esq. Manuel Bento Rodrigues Saldanha de Oliveira Camossa; à dir. barão Schmitz)

Hoje tem início mais um encontro do "Fórum Económico Mundial" que em Davos vai abordar o "clima recessivo" mundial e o colapso do sistema financeiro do "mundo desenvolvido"!

Esta notícia levou-me a rever as cartas e fotografias de um familiar, Manuel Bento, durante a sua estadia em Davos pelos anos de 1894 a 1899. Era uma terra dinâmica, com expressão científica, à qual recorriam centenas de jovens pela particularidade da sua universidade – "Fridericianum", fundada em 1878 – ter sido instituída, primordiamente, para acolher estudantes sofredores de tuberculose que se albergavam nos Alpes para tratamento. Aqueles ares foram pródigos para Manuel Bento que estudou e tratou da sua doença. Foi um primeiros Agrónomos. Em Portugal fundou um jornal (Independência d'Águeda, 1904), empreendeu a venda de leite em vidro higienizado, reconverteu a forma de produção de manteiga utilizando processos mecanizados, deu cursos, palestras e iniciou uma transformação agrícola importando, da Suíça e Alemanha, nos inícios do século XX, máquinas de lide de grande porte. Foi um dos fundadores do partido Regenerador-Liberal. Mas os "ares" portugueses não lhe devem ter feito bem pois em Dezembro de 1910, apesar da sua enérgica actividade, rumou, definitivamente,  para os Estados-Unidos... É... O Afonso Costa tratou-lhe da "tosse"....

26 de janeiro de 2009

O pasmo

A jornalista Inês Nadais escreveu um artigo no jornal Público. Não sei se foi uma "tradução" de outrém ou um artigo de fundo. O que me atraiu foi o pasmo, boquiaberto, exclamativo e tão insurgido sobre "o tempo em que havia leis lesa-majestade: o nosso tempo". Muito poderia escrever sobre esse "pasmo" mas o que me importa referir é que existem leis lesa-majestade, leis lesa-presidente da república, lesa-ministros, lesa-cidadãos. Existem leis. A Inês Nadais deve estar incomodada com o facto "majestade". Ainda bem. 

Agora vamos ao texto-lesador: "Do Rei Rama ao príncipe herdeiro, a nobreza era afamada pelos seus esquemas e enredos amorosos. O príncipe herdeiro tinha muitas mulheres, 'superiores' e 'inferiores', com uma galeria de concubinas para fins de entretenimento. (...), etc." – e vamos ao pressuposto, cara Inês Nadais, que o "escritor" tinha, ao invés, feito esta versão: "Do pai Nadais ao filho mais velho, aqueles tipos eram afamados pelos seus esquemas e enredos amorosos. O mais velho tinha muitas mulheres, 'superiores' e 'inferiores', com uma galeria de concubinas para fins de entretenimento". Gostava? Se fosse com a minha família, por menos palavras – eu que não alinho com esquemas "Bacalhoa" – colocava uma acção em tribunal, sem me importar com "o nosso tempo" ou com o "défice democrático". E não me trate por majestade!


O acesso à carreira política – uma questão, também, de impacto ambiental



Pobre país de alguidar


Pobre país. Todos se entretêm a olhar as faces do "sobrinho" quando a coisa é mais cara de "padrinho". Todos querem dar açoites mas inibem-se de castigar a própria consciência. O povo-carrasco, essa entidade moral, subiu para o palanque e apronta a guilhotina. Quem fica na assistência?

23 de janeiro de 2009

Cá se fazem

Guiné. Comandos Portugueses de Marcelino da Mata: os Vingadores

Esta semana o Ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, afirmou que por questões de segurança os militares portugueses em exercício no Iraque iam retirar: 6 soldados.
Pelo mesmo ministério foi informado que a presença militar portuguesa em exercícios no Afeganistão ia aumentar para: 100 soldados.
O bolo para alimentar a nossa participação em acções no exterior será de 70 milhões de euros.

Em meu nome, pois nada posso, peço desculpas aos portugueses ex-combatentes no ultramar pelo abandono físico, financeiro e moral a que tem sido votados. Para a malta do ministério da defesa e das finanças, quantos soldados em exercícios no exterior valem por cada ex-soldado do ultramar?

Cá se pagam


António Gomes Silva Pinheiro. Arriscou a vida. O seu conforto. Não se lhe conhecem virtudes de panfleto e demagogia barata. Enquanto físico-mor e médico, administrador do hospital das Caldas, praticou o altruísmo e o desprendimento. Administrou um hospital em tempo de guerra – as invasões francesas – e tratou indistintamente franceses, ingleses e portugueses. Construiu enfermarias, estradas, comprou e cultivou campos estéreis para cultivo e reserva de mantimentos. Enquanto civil fez guerrilha, deu guarida na sua casa a ingleses, informou Wellington dos movimentos dos invasores, instigou a população a ajudar as tropas. Enquanto partidário, anos mais tarde, decidiu apoiar D. Miguel. Foi destituído. Foi perseguido pelos liberais. Caiu no esquecimento. Despercebido. Os tempos passaram. Esta malta parece a mesma...


Não interessa ler só as revistinhas das "correntes" e grupinhos. Interessa ler os incorruptíveis


No dia em que a questão económica estiver resolvida (e a questão económica existe na medida em que procuramos desembaraçar-nos dela); no dia em que todos tenham assegurada a condição material da existência, em regime de homens livres; no dia em que não seja preciso ser rico para se poder viver (o que, a dentro das instituições democráticas e livres, terá de resultar de uma larga contribuição dos progressos científicos), então a classe média (o espírito democrático que a define) começará a reabsorver as classes economicamente diferenciadas, reabsorvendo-as pela cultura dos sentimentos e da inteligência; e a sociedade terá uma estrutura fundamentalmente espiritual – que ultrapassará esse "milagre da história" que foi a civilização helénica.

Amorim de Carvalho
Panorama, A Propósito do livro "A Traição Burguesa". Prometeu, nº1-2, 1947

22 de janeiro de 2009

Não interessa ler só as prosas que rezem como os nossos "credos". Interessa ler os incorruptíveis


"(...) Usando dos aludidos títulos da novíssima jurisprudência de Berlim, a Inglaterra declara que os Macalolos estão sob o seu protectorado; (...) À tempestade que se formara e crescia imprevistamente para os lados de Lisboa respondiam, naturalmente, o terror e a confusão no Paço das Necessidades. (...) O Finis Monarchiae parecia ter chegado, enfim, depois de duzentos e cinquenta dolorosos anos de beatérios, devassidões (...)".

Basílio Teles, Do Ultimatum ao 31 de Janeiro

Não interessa ler só as prosas dos que nos dizem vultos. Interessa ler os incorruptíveis


"Evidentemente, o desmoralizado era o rei, e não o desmoralizador. Não era ele quem desmoralizava o sistema, os homens e os partidos, mas os homens e os partidos quem desmoralizava o sistema e o rei".

Homem Cristo, Monárquicos e Republicanos


Intermezzo




"Morrer por esta Pátria grande e linda"


Cativo está da castelhana gente
E uma ideia o consome pertinaz:
O castelo livrar do p'rigo ingente
E à execução se abalançou audaz.

Ao filho quer falar – diz – porque tente
Convencê-lo a render-se à boa paz.
O adversário convence, quando mente,
– E disto só o heroísmo é capaz –.

Chegado à fortaleza ao filho exorta:
– Maldito sê, se entrarem no Castelo
Sem pisar teu cadáver junto à porta! –

E morto cai. Mas vive o nome ainda
Na História dos Heróis. E como é belo
Morrer por esta Pátria grande e linda!


Maria Amélia Camossa Saldanha
"O Alcaide do Castelo de Faria", Barcelos, 1972
In Poesias, Porto, 1990

21 de janeiro de 2009

Heróis - II


Num momento em que o globo se entretêm a seguir o caso Barack Obama e espera as maiores virtudes desse homem de todas as cores, eu recordo um Português que lutou por Portugal e que foi tratado pelos responsáveis (muitos deles agora berram em prol da "Obamização") com desprezo. À sua maneira e nas terríveis circunstâncias não podia ter sido melhor, mais altruísta. Marcelino da Mata é um Português que devia ter capas e televisão. Onde vive? Onde andará? Não é preciso olharmos para o outro lado do atlântico para termos os nossos "sonhos", de carne e osso, e fazer-mos odes à liberdade. Muitos heróis estão !

Nascido na Guiné Portuguesa em 1940, Tenente-Coronel Marcelino da Mata, o militar Português mais condecorado, na primeira pessoa:

(1963) – “Comecei a perceber o que estava em causa, quando a guerra começou: eu tinha de lutar de um lado; e esse lado era – e é – Portugal. A princípio não percebia nada de política, mas como eu não gostava de caboverdianos e eles estavam à frente do PAIGC, eu estava contra eles; depois comecei a não gostar do comunismo. (...) Apareceu um alferes chamado Maurício (Leonel de Sousa) Saraiva a pedir voluntários para formar um grupo de “comandos” e eu ofereci-me”:

(1965) – “(...) Estava tudo bloqueado e o povo tinha fome. Eu formei o grupo, instruí os homens e começamos a actuar. Consegui abrir a estrada de Mansabá, afastei o inimigo e os barcos começaram a atracar. Quando chegou a época do cultivo, abrimos o outro lado do rio, o povo atravessou o rio e começou a cultivar.. Na altura o PAIGC estava a 2 Klm de Farim. Afastei os gajos todos.”

(1967) – “(...) Quem me condecorou foi Salazar, que me disse que eu era um herói nacional e que, por aquilo que tinha lido de mim, eu merecia a medalha que tinha ao peito. Foi a primeira vez que vim ao Continente e não cheguei a ver Lisboa – foi desembarcar no aeroporto, dormir, ir à parada e voltar a apanhar o avião – porque estava em preparação uma operação de grande envergadura”.

(1973) – “(...) Nesta operação fizemos 160 (?) mortos e apanhamos 96 toneladas de material. Éramos 6 homens.”

(1974) – “ (...) Hoje acho que me mandaram logo embora da Guiné a seguir ao 25 de Abril, porque não havia tropa nenhuma na Guiné, fosse de que arma fosse, que não me obedecesse.(...) o Jaime Neves pôs-me a dar uma instrução que não existia, a de guerra convencional de cidades, 2 meses depois alguns tipos foram queixar-se que eu puxava de mais por eles e deixei de dar instrução. Passei a não fazer nada e os dias a jogar às cartas. Tenho o curso dos comandos, dos pára-quedistas, operações especiais, fuzileiro especial, de mergulhador, de sapador de minas e armadilhas, de enfermeiro e de cozinheiro." (Marcelino da Mata teve 5 Cruzes de Guerra).

(1975 – Quartel dos RALIS) – “(18 de Maio) Apareceu depois das 24h00 um indivíduo alto, forte e de cabelo e barba compridos que, intitulando-se 2ª comandante do Ralis – mas depois vim a saber que se tratava de um militante do MRPP conhecido por Ribeiro –, que me estendeu um papel para aí eu escrever tudo o que sabia do ELP. Uma vez que jamais tive uma ligação com o ELP ou qualquer outra organização, respondi-lhes negativamente. (...) Após isso fui agredido 7 vezes com uma cadeira de ferro nas costas. Fiquei muito ferido. (...) depois apareceram mais dois, um de barba postiça. Mandaram-me despir a camisa e encostar à parede. Um deu-me uma bofetada, eu dei-lhe um murro e o tipo caiu. Entraram soldados, agarraram-me, puseram 3 algemas nos braços e nos pulsos, começaram-me a bater com cadeiras de ferro, partiram-me a bacia e quatro costelas e aleijaram-me seriamente a coluna; às vezes não consigo respirar nem urinar. A seguir mandaram-me para Caxias. (...) Quando (em 15 de Outubro) me libertaram de Caxias, na mesma noite foram a minha casa – vim a saber depois, para me raptar e me mandar para a Guiné – mas enquanto procuravam por mim, desci por uma corda do 2º andar até ao chão. (...) Voltei a Portugal depois de 25 de Novembro de 1975 e apresentei-me no Regimento de Comandos. Em 1980 fizeram-me assinar um documento a dizer que queria sair da tropa; houve algumas dificuldades com a percentagem de incapacidade que me queriam dar, deram-me 64% de incapacidade e vim embora da tropa”.


Fontes: ultramar.terraweb

18 de janeiro de 2009

O que seria


No Estado Sentido, Nuno Castelo Branco fez uma pródiga revelação: "Eu conheci o Roxo". Poucas são as vezes que nos cruzamos com Homens que tiveram importância, pessoas que nos moldam. Não falo de figuras mediáticas, figuras das letras, ou figuras castiças, ou homens menores impressos em gigantes out-doors consoante a época política ou a época do ano. Falo de Homens (ou mulheres) que não procuraram o ângulo certo da câmara, nem foram cartaz para seitas de adorno e favores. Falo de Homens cujos gestos nunca serão biografados porque a gerência quer as novas audiências entretidas com os básicos elementos do positivismo primata do prazer. As histórias dos Homens não são Histórias bonitas.

E o que seria hoje do Roxo? – diz o Nuno. Não seria. A traição provoca nos traídos a eminência do afastamento.

16 de janeiro de 2009

"até ao limite das minhas forças"


Para aqueles que acham que os heróis vestem de couro e frequentam a "noite"; para aqueles que acham que os heróis entram sozinhos em bares para andar à porrada e ainda levam para a cama a boazona; para aqueles que acham que heróis só nos "filmes", eu dedico este emotivo excerto de uma reportagem feita em 1971, no tempo em que um Herói lutava nas selvas limítrofes da Tanzânia e do Malawi como se defendesse as serras transmontanas, no tempo em que o dever e amor consumavam a Pátria de Portugal.

(...) Mas que espécie de homem é este Roxo, este Fantasma da Floresta que é já lendário em vida, que é responsável pela segurança de toda uma cidade, que dirige operações militares sem previamente ter feito qualquer tirocínio formal como Soldado? O homem de quem os residentes de Vila Cabral dizem: “Se o Roxo ficar, ficamos; se o Roxo partir, partimos” ?

(...)
“Este é o único estilo de vida que aceito levar. Passo muito dia sem comer. Sem dormir. Ando semanas inteiras ao relento, dia e noite sem ter onde abrigar-me das intempéries. Reparto com os meus homens tudo o que me chega às mãos. Sei que não aguentarei sempre. Dentro de alguns anos, as forças começarão a faltar-me. Inclusivamente, não estou livre de ter um azar. Mas, enquanto puder, cá estarei de pé firme, para o que der e vier. E depois, há os homens que lutam comigo, que confiam em mim, de mim dependem. E há, sobretudo, a população em peso da província, que conta incondicionalmente comigo. Sinto-me no dever de ajudá-la até ao limite das minhas forças. É para isso que cá ando.”


(Reportagem sobre Daniel Roxo, publicada na revista Observador, nº 14, de 21 de Maio de 1971)

15 de janeiro de 2009

Heróis


O blogge "Combustões" ostenta no seu cabeçalho a fotografia de um homem cujo nome ouvi várias vezes durante o meu serviço militar em Tancos. Não seria má ideia o Miguel deixar esse ícone por uns tempos a abrir o seu blogge! Um dos meus instrutores, o sargento Capela gabava-se de ter conhecido esse homem, algures por Moçambique. Uma das tarefas que ele me dava, e que eu aproveitava para me sentar a ouvir histórias, era engraxar uma verdadeira colecção de botas. Um dos pares, de biqueira de aço, fora-lhe oferecida pelo "Roxo", o "fantasma da floresta". Se eu tivesse ouvido tais façanhas num contexto de "amigos", de café, não tinha acreditado, mas como poderia eu duvidar da prosápia de um sargento que para muitos também era um herói do ultra-mar? 
Há um nível de valores cujo estado só se alcança com o sacrifício do esforço moral ou físico. São os valores da abgenação pela própria vida em prol do colectivo e imaterial; os valores do altruísmo de carácter. Roxo foi um homem que viveu, um homem guerreiro, como poucos devem ter sido. Não conheço filmes nem documentários sobre a sua figura (o que não é de espantar num país com tantos personagens históricos mas onde os herois escolhidos são a D. Branca, os Pintos da Costa e jogadores de meia-alta). Não existem "associações" com o seu nome. Nunca vi um selo com o seu perfil. Talvez não haja nenhuma rua que o perpetue. Não importa. Os tempos que correm não elogiam homens-sem-medo, ao invés, são propícios para cobardes e hipócritas.

14 de janeiro de 2009

Maria Amélia Camossa Saldanha Amorim de Carvalho, 14 de janeiro de 1929

Se a minha mãe fosse viva faria hoje 80 anos. Hoje, querida mãe, li muitas das poesias que escreveste – ainda estou a ler e a escrever de cor uma estrofe que reti na infância em que fiquei.
Amo-te.

(...)
Quando a minha alma chora!...
Quando a angústia me devora!...
E eu começo a soluçar!...
Minhas lágrimas, são mais versos!
Que escrevo em temas diversos!
Versos... que eu faço a chorar!...


Intermezzo












12 de janeiro de 2009

Tira dentes


Enquanto Portugal se vai entretendo a tentar descobrir a "forma" da crise, na forma em que nos afecta, os dentes vão caindo. É o excesso de cáries provocadas pelo distribuir de brindes com que os sucessivos governos nos presentearam desde que a liberdade trouxe fartos pratos e iguarias para o povo se banquetear. Talvez a solução para a "crise" seja dividi-la em pequeninas crises, dar-lhe nomes, tratar por prioridades, deixar ir os de leite. Talvez a solução seja viver com menos, porque não é possível a ganância por tanto. As nossas crises são assim, crises de excessos. Faltam-nos dentes para tanta gengiva. Falta-nos visão para tanto olho. Falta vergonha na cara a tanto ladrão. Falta o passado para quem quer tanto o futuro....

10 de janeiro de 2009

Candidatos sintomáticos para presidente à nossa república - I


Ele: moderno, sem tabus, só olha em frente, não quer voltar à idade média, odeia brazões mas adora dragões, diz sim ao aborto-drogas, curte filmes de acção, gosta do natal e de receber prendas mas está-se a borrifar para a religião, é de esquerda, gosta de mandar mensagens, tem um "Magalhães", é sensível, especialmente aos piercings, acha que o futuro de portugal é uma grande de uma república onde todos possam curtir, acha que somos todos iguais e temos os mesmos direitos, não sabe o é a constituição mas promete cumprir o que lhe disserem para fazer, não concorda com fronteiras.

Ela: (se for candidata é candidata, se for dama é a 3ª porque ele está a divorciar-se): moderna, feminista, multicultural, gosta de curtir e fazer directas, acha que os ricos habilitam-se a ser assaltados, não gosta de ler mas adora ver televisão, acha uma seca Cascais, adora a Quinta do Mocho, concorda com o aborto e com a eutanásia e com outras coisas mais fortes, gosta de se levantar tarde, vai ajudar os portugueses a deixarem de ser caretas, gosta de "etiquetas" (das boas marcas), quer ver os portugueses em festa, acha que portugal tem que ser uma rave de esquerda e que o passado não existe, acha que temos de ser mais abertos e que deviam fechar mais universidades, acha que só deviam existir fronteiras na nossa costa marítima.

Foto tipo, não representa os originais

Agarrados ao coiso


Andam para aí a circular, mail ante mail, dados dos rendimentos dos nossos políticos, retirados das declarações ao abrigo de uma qualquer "transparência". Parece que os vermelhos, os laranjas, os rosas e cinzentos não se estão a dar mal com a demagogia do "trabalhar em prol". São estes homens e mulheres agarrados ao coiso que vão fazer crescer o país. Que bem que lhes faz viver a coisa pública....

8 de janeiro de 2009

A República vai parir mais do mesmo



Num dia de sol tudo propicia ser alegre. Numa mesa bem composta tudo propicia ser saboroso. Numa praia com mar azul tudo propicia uma água com temperatura agradável. Este país visto de longe propicia ser um encanto. Mas tudo é aparente até a prova de facto. Aqui tudo propicia muita coisa. Mas pouco o é. Os tempos estão bons para provas dadas e comprovações. Não é possível manter a aparência por muito mais tempo. A III República Portuguesa é um caco que nunca chegou a malga. Os pedaços estão espalhados em meia dúzia de mãos manipuladas por milhares de interesses. Os portugueses estão convencidos que estão no topo da modernidade e da máxima expressão da liberdade, agora somos iguais e votamos uns nos outros. Somos todos hipotéticos-prováveis Presidentes! Em prol do que o regime propicia andam milhões transformados em morcões. Como é possível acreditar que não é possível melhor? Entretido com a democracia o cidadão não se apercebeu que a República descontinuou a nossa história, eliminou as nossas referências, causionou parte dos nossos valores, impulsionou o ediondo mote da inveja, criou um Estado aglutinador. O cidadão vegetante, situacionista, ressabiado, frustrado pelo devaneio do sonho comuno-socialista, que prometia mundos-fundos, ainda não percebeu que as águas, desta galdéria desnudada, rebentaram há muito, mesmo há muito. Querem que o regime volte a parir mais do mesmo? Há que retirar o útero à coisa para que não seja parido mais do mesmo que de Mais não tem mesmo nada.


pintura © David Ho

5 de janeiro de 2009

O que move a vida



Esta fotografia que publico é do meu afilhado, Max. Em pose, ele exibe com ar assumido o "sabre" luminoso com que guerreia os inimigos das estrelas. Fico feliz por a minha prenda de Natal ter assaltado o seu coração. Estou pelo seu orgulho. O Max é uma das coisas que move a minha vida. Porque tenho duas filhas, uma delas mais velha, consigo percebê-lo e adivinhar o que o gratifica. O Max não representa o mesmo que a Joana ou a Beatriz. O seu nascimento mais tardio trouxe-o, todavia, como o terceiro, fruto de ser filho de uma das pessoas que mais gosto, um amigo, que me influenciou especialmente e me permitiu dizer – em casa – que eu tinha uma nova família. Quando a minha mãe era viva eu pedia-lhe para não esquecer o Gonçalo nas suas orações. Ela mais não fazia do que rezar o fio das minhas confissões e aspirações. Minha mãe. 
O tempo, que me move, diz-me que os momentos que mais aspiramos nunca estão planeados, mas só se definem se nos encontramos "lá". É nesse tempo-estado-amor que tudo é perene e crucial. Porque não é só nosso, não importa se foi, se é ou se vai ser. O Max entrou em mim por uma porta que já existia e assim lá irá estar, com "sabres" de luz, com naves, com heróis, ou tão somente. Mais do que "crescer" a vida é o alcance incessante de uma viagem que passa por nós e que em nós não pode ficar.


3 de janeiro de 2009

Progressão silenciosa?


Atendendo à leitura exclusiva dos blogges nacionais, que se dedicam à visão política, evidencio três sintomas. Os que escrevem o desejo de mudança política, os que escrevem o desejo da satisfação política e os que os que escrevem uma alternativa de ideologias e/ou do regime. Os que desejam uma "mudança" rogam-no "à direita" e "à esquerda" com parcimónia e deleite de espectador profundo, muitos, quase a roçar uma vaidade intestinal. Salpicam pormenores que mais ninguém vê e têm o gosto pela escrita perentória. Os que desejam a satisfação fazem-no a partir a louça, mesmo as peças carismáticas. Poucos apresentam um programa pessoal mas gostam de dar ares de conhecer o "pessoal". Os que desejam uma rotura regimental, assumida, navegam com reconheciveis "instrumentos" mentais e afectivos mas a maior parte destes bloggers peca pela cordealidade na oratória.
Pela primeira vez desde que escrevo "on-line", dediquei-me a "auscultar" profusamente a bloggosfera. Em Portugal escreve-se bem. Sem querer situar ilações diria que a qualidade da escrita me parece bem melhor que a originalidade das ideias. Os blogges são, acima de tudo, páginas pessoais, intimas, na sua maioria, apesar de haver bloggers que fazem o apelo do compadrio cybernético, uma espécie de "rodinha de mãos dadas". Estou a ler e a ver este mundo lúdico. Lúdico. Não faço juízos de valor sobre os outros bloggers – gosto ou não gosto do tema ideacional – mas esta "experiência" comprovou o que eu já antevia: tanta "implosão", nenhuma "explosão"...
Relembro-me dos meados dos anos 80, época em que eu cumpri tropa em Tancos na base de tropas especiais. Um dos exercícios era a aprendizagem de técnicas de progressão silenciosa. No fundo, progredir em direcção ao "alvo" sem ser visto, ouvido, sentido. Uma das técnicas era a progressão no solo, vulgo "ragestar". Mas não era só. Em direcção ao alvo a paciência era essencial. Muita paciência – objectiva. Se a prosa bloggista for uma forma de "progressão" no terreno adverso da participação cívica (terreno viscoso e lamacento a que se dá o nome de "democracia participativa") ou terreno de oportunidades de interacção intelectual eu vejo a bloggosfera como um espaço agregador, apesar das limitações da constatação física. Mas temo que a maioria dos bloggers não presumam a sua "acção" como uma marcha, um percurso alternativo de guerrilha que permita saltar do sofá e do espelho, com risco para o "cabedal"; a maioria faz a passagem em trilhos já traçados, onde se aplica menos esforço. Assim, não há emboscada que surpreenda.

2 de janeiro de 2009

O Governo e a República

2009. Esboço de uma programação: Pôr o cinto/ gozar as vistas/ fazer 3 cruzes

Olho para a frente (não é um pleonasmo!). Tento adivinhar o que vai acontecer a este país. Não digo daqui a uns anos mas ante uns meses. Três "actos eleitorais". Pior que as múltiplas crises que atravessamos (a económica nem será a pior de todas) o desperdício mental, financeiro e emocional da época eleitoralista é um devaneio a que me custa assistir. Três de uma acentuada! A reflexão vai ser substituída pela frustração, a participação pelo alheamento, a democracia pelo "clubismo". Ou será que estarei errado? Serão três anestesias morais? Em todo o caso, 2009 ficará na história (não é uma redundância!). O representante desta república veio avisar-nos das " ilusões", da "verdade". Do "ano difícil". Tudo o que for dito – com a aura messiânica e demagógica destes tempos, para mais vindo daquele palácio – faz parte da programação festiva que esta República se prepara para nos presentear. A programação é vasta. Num só sentido. A nossa intervenção fica-se pelo pôr o cinto/gozar as vistas/fazer 3 cruzes. Tal-qual analfabetos. Não...mentalfabetos.