21 de janeiro de 2009

Heróis - II


Num momento em que o globo se entretêm a seguir o caso Barack Obama e espera as maiores virtudes desse homem de todas as cores, eu recordo um Português que lutou por Portugal e que foi tratado pelos responsáveis (muitos deles agora berram em prol da "Obamização") com desprezo. À sua maneira e nas terríveis circunstâncias não podia ter sido melhor, mais altruísta. Marcelino da Mata é um Português que devia ter capas e televisão. Onde vive? Onde andará? Não é preciso olharmos para o outro lado do atlântico para termos os nossos "sonhos", de carne e osso, e fazer-mos odes à liberdade. Muitos heróis estão !

Nascido na Guiné Portuguesa em 1940, Tenente-Coronel Marcelino da Mata, o militar Português mais condecorado, na primeira pessoa:

(1963) – “Comecei a perceber o que estava em causa, quando a guerra começou: eu tinha de lutar de um lado; e esse lado era – e é – Portugal. A princípio não percebia nada de política, mas como eu não gostava de caboverdianos e eles estavam à frente do PAIGC, eu estava contra eles; depois comecei a não gostar do comunismo. (...) Apareceu um alferes chamado Maurício (Leonel de Sousa) Saraiva a pedir voluntários para formar um grupo de “comandos” e eu ofereci-me”:

(1965) – “(...) Estava tudo bloqueado e o povo tinha fome. Eu formei o grupo, instruí os homens e começamos a actuar. Consegui abrir a estrada de Mansabá, afastei o inimigo e os barcos começaram a atracar. Quando chegou a época do cultivo, abrimos o outro lado do rio, o povo atravessou o rio e começou a cultivar.. Na altura o PAIGC estava a 2 Klm de Farim. Afastei os gajos todos.”

(1967) – “(...) Quem me condecorou foi Salazar, que me disse que eu era um herói nacional e que, por aquilo que tinha lido de mim, eu merecia a medalha que tinha ao peito. Foi a primeira vez que vim ao Continente e não cheguei a ver Lisboa – foi desembarcar no aeroporto, dormir, ir à parada e voltar a apanhar o avião – porque estava em preparação uma operação de grande envergadura”.

(1973) – “(...) Nesta operação fizemos 160 (?) mortos e apanhamos 96 toneladas de material. Éramos 6 homens.”

(1974) – “ (...) Hoje acho que me mandaram logo embora da Guiné a seguir ao 25 de Abril, porque não havia tropa nenhuma na Guiné, fosse de que arma fosse, que não me obedecesse.(...) o Jaime Neves pôs-me a dar uma instrução que não existia, a de guerra convencional de cidades, 2 meses depois alguns tipos foram queixar-se que eu puxava de mais por eles e deixei de dar instrução. Passei a não fazer nada e os dias a jogar às cartas. Tenho o curso dos comandos, dos pára-quedistas, operações especiais, fuzileiro especial, de mergulhador, de sapador de minas e armadilhas, de enfermeiro e de cozinheiro." (Marcelino da Mata teve 5 Cruzes de Guerra).

(1975 – Quartel dos RALIS) – “(18 de Maio) Apareceu depois das 24h00 um indivíduo alto, forte e de cabelo e barba compridos que, intitulando-se 2ª comandante do Ralis – mas depois vim a saber que se tratava de um militante do MRPP conhecido por Ribeiro –, que me estendeu um papel para aí eu escrever tudo o que sabia do ELP. Uma vez que jamais tive uma ligação com o ELP ou qualquer outra organização, respondi-lhes negativamente. (...) Após isso fui agredido 7 vezes com uma cadeira de ferro nas costas. Fiquei muito ferido. (...) depois apareceram mais dois, um de barba postiça. Mandaram-me despir a camisa e encostar à parede. Um deu-me uma bofetada, eu dei-lhe um murro e o tipo caiu. Entraram soldados, agarraram-me, puseram 3 algemas nos braços e nos pulsos, começaram-me a bater com cadeiras de ferro, partiram-me a bacia e quatro costelas e aleijaram-me seriamente a coluna; às vezes não consigo respirar nem urinar. A seguir mandaram-me para Caxias. (...) Quando (em 15 de Outubro) me libertaram de Caxias, na mesma noite foram a minha casa – vim a saber depois, para me raptar e me mandar para a Guiné – mas enquanto procuravam por mim, desci por uma corda do 2º andar até ao chão. (...) Voltei a Portugal depois de 25 de Novembro de 1975 e apresentei-me no Regimento de Comandos. Em 1980 fizeram-me assinar um documento a dizer que queria sair da tropa; houve algumas dificuldades com a percentagem de incapacidade que me queriam dar, deram-me 64% de incapacidade e vim embora da tropa”.


Fontes: ultramar.terraweb

4 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Dois grandes colares da Torre Espada - Valor, Lealdade e Mérito.

cristina ribeiro disse...

Esquecidos pelo " glorioso " presente...

João Amorim disse...

O Marcelino, depois de 1980, voltou clandestinamente à Guiné e a Angola. Por lá ficou uns tempos e a sua localização foi denunciada pelo jornal... "Expresso"... o que o obrigou a fugir para cá.

Nuno Castelo-Branco disse...

"Roubei-lhe" o post, tal como avisei na terça-feira!