3 de janeiro de 2009

Progressão silenciosa?


Atendendo à leitura exclusiva dos blogges nacionais, que se dedicam à visão política, evidencio três sintomas. Os que escrevem o desejo de mudança política, os que escrevem o desejo da satisfação política e os que os que escrevem uma alternativa de ideologias e/ou do regime. Os que desejam uma "mudança" rogam-no "à direita" e "à esquerda" com parcimónia e deleite de espectador profundo, muitos, quase a roçar uma vaidade intestinal. Salpicam pormenores que mais ninguém vê e têm o gosto pela escrita perentória. Os que desejam a satisfação fazem-no a partir a louça, mesmo as peças carismáticas. Poucos apresentam um programa pessoal mas gostam de dar ares de conhecer o "pessoal". Os que desejam uma rotura regimental, assumida, navegam com reconheciveis "instrumentos" mentais e afectivos mas a maior parte destes bloggers peca pela cordealidade na oratória.
Pela primeira vez desde que escrevo "on-line", dediquei-me a "auscultar" profusamente a bloggosfera. Em Portugal escreve-se bem. Sem querer situar ilações diria que a qualidade da escrita me parece bem melhor que a originalidade das ideias. Os blogges são, acima de tudo, páginas pessoais, intimas, na sua maioria, apesar de haver bloggers que fazem o apelo do compadrio cybernético, uma espécie de "rodinha de mãos dadas". Estou a ler e a ver este mundo lúdico. Lúdico. Não faço juízos de valor sobre os outros bloggers – gosto ou não gosto do tema ideacional – mas esta "experiência" comprovou o que eu já antevia: tanta "implosão", nenhuma "explosão"...
Relembro-me dos meados dos anos 80, época em que eu cumpri tropa em Tancos na base de tropas especiais. Um dos exercícios era a aprendizagem de técnicas de progressão silenciosa. No fundo, progredir em direcção ao "alvo" sem ser visto, ouvido, sentido. Uma das técnicas era a progressão no solo, vulgo "ragestar". Mas não era só. Em direcção ao alvo a paciência era essencial. Muita paciência – objectiva. Se a prosa bloggista for uma forma de "progressão" no terreno adverso da participação cívica (terreno viscoso e lamacento a que se dá o nome de "democracia participativa") ou terreno de oportunidades de interacção intelectual eu vejo a bloggosfera como um espaço agregador, apesar das limitações da constatação física. Mas temo que a maioria dos bloggers não presumam a sua "acção" como uma marcha, um percurso alternativo de guerrilha que permita saltar do sofá e do espelho, com risco para o "cabedal"; a maioria faz a passagem em trilhos já traçados, onde se aplica menos esforço. Assim, não há emboscada que surpreenda.