9 de maio de 2009

É tudo nosso


Durante um almoço com um primo que reside em Paris, mas que conhece sobejamente o Porto, vi-me inundado de críticas ao "descalabro urbanístico" ao "abandalhamento"que o meu conviva constata de cada vez que se desloca a esta cidade. Eu conheço parcialmente Paris e outras capitais e comungo em parte da opinião. Houve um tempo, muito recente, em que o povo foi acometido por uma febre discursiva que lhes gravava no encéfalo que "isto" era "tudo nosso". E o nosso, aqui, representa todo e qualquer património. Eu julgava que o antibiótico da educação e da cultura – prometida – tivessem feito baixar a temperatura do histerismo nacionalizador mas pelos vistos o efeito febril está numa nova mutação. 
De Lisboa chegam notícias de um novo projecto de "requalificação" do Terreiro do Paço, no Porto essa "requalificação" está a olhos vistos consumada. A nova  Avenida dos Aliados ficou irreconhecível. A uniformidade dos materiais polidos, a remoção dos antigos canteiros, a soma do envolvimento da arquitectura e a dupla avenida trouxe um monólogo quando anteriormente existia um diálogo – e uma história! – entre todos os elementos. Sou admirador da boa arquitectura e não me vou alongar com a minha opinião, apenas desabafar que cada local, cada bairro, cada rua, cada ermo, tem especificidades que a serem radicalmente alteradas tornam-se noutra coisa. Mais grave parece ser o caso do Terreiro do Paço. A culpa parece-me ser evidente: a partir do momento que os autarcas e políticos em exercício têm poder ou desculpas para fazer, fazem. É este poder que deve ser regulado. O "exercício" traz muita saliva, uma delas é que a cidade, a praia, o campo, as árvores, os "palácios", as praças, tudo... tudo deve ser "devolvido" ao povo e "embalado" de forma a que o povo perceba! Talvez seja por isso que os embelezamentos urbanos estejam tanto na moda a condizer com o resto. E se o povo tem tanto porque é que se sente tão pobre?...

2 comentários:

João Pedro disse...

Toda a razão. A v0ntade de deixar "obra feita" leva a que se cometam autênticos atentados nas cidades. Não bastavam as rotundas, agora os centros das urbes são as novas vítimas. Os Aliados foram terraplanados a granito em detrimento da calçada portuguesa e do verde que lá havia (opção contraditória com a tomada na Praça Carlos alberto). Agora prometem "modernizar" o Terreiro do Paço, uma cobaia eterna de projectos de obras que nunca é deixado em paz. E entretanto, com tudo isto, as autarquias vão-se endividando alegremente.

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois e ontem o "novo Costa da república" lá deu o voto de "qualidade" para emporcalhar o Terreiro. O que vale é que daqui a uns anos rebentamos com aquilo tudo que vão fazer!