10 de maio de 2009

Retornar a quê?


Ontem vi acidentalmente o fim de uma reportagem, penso que na "SIC", sobre uma indemnização que um "retornado" consegui de um "supremo" tribunal qualquer. Não vi o início da reportagem mas apercebi-me da questão. O senhor conseguiu, finalmente, ser indemnizado mas por dezassete vezes o valor que o Estado Português lhe queria dar, valor que se aproximou dos prejuízos que reclamava, desde Moçambique. Dizia, este senhor já com avançada idade, que se havia recusado nos anos 80 a assinar um documento que o Estado lhe propusera e no qual receberia um valor irrisório. A reportagem não tinha outro teor que não o valor conseguido em tribunal ao fim de vinte e tal anos de processos. A reportagem não focou ou contextualizou a questão inerente da descolonização. A reportagem não mencionou as circunstâncias que motivaram a fuga deste senhor, em particular. À reportagem interessava mostrar ao mundo que um homem consegui uma "pipa de massa" neste momento de crise, vejam lá! É esta mentalidade que prova os juízos, a educação que tem sido incutida (para justificar políticas) nos cidadãos deste país; num dia elogiam as reformas dos militares de Abril, as pensões dos "anti-fascistas", noutro dia choram as pensões de miséria, a falta de trabalho dos camaradas, noutro dia apontam o dedo a quem tudo perdeu e teve de fugir para salvar a vida – à conta das lides dos "anti-fascistas" e dos brincalhões do regime! Retornar! Que palavra tão mal intencionada. Como se os políticos e os sociólogos caseiros quisessem fabricar com "palavras" um acolhimento que nunca souberam dar em gestos aos Portugueses ultramarinos. Retornar precisamos nós. Enquanto não retornarmos à verdade-valor e em consciência julgarmos objectivamente a nossa história não há retorno para sermos de novo Portugal.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem pode espernear, João. Imagino a "pipa de massa" que recebeu, em troca de uma vida estragada para o homem e gerações a que deu origem. Para não falar na vergonha eterna sobre uma certa História bem esquecida...