27 de novembro de 2009

Pela direita


(...)
A tese da luta de classes, tão famosa desde meados do século XIX, apresenta uma perspectiva inteiramente oposta à da tese psicológica Aqui o direitista é o mais racional de todos os agentes políticos. A sua oposição aos princípios revolucionários não tem ligação alguma a motivações ocultas ou inconscientes. Significa apenas que possui a nítida consciência da ameaça que estes representam para os seus interesses. Sendo a história da humanidade uma contínua sucessão de classes dominantes e dominadas, cada classe é revolucionária-esquerdista antes de alcançar o poder e conservadora- direitista depois de o conquistar. O esquerdismo e o direitismo não são, pois, ideologias ou aspirações com uma consistência fixa, mas atitudes a que recorrem as classes sociaisà medida das suas conveniências. Existe, no entanto, um elemento constante nas relações entre as direitas e esquerdas que se sucedem durante o processo histórico. As direitas procuram, em geral, na filosofia idealista a justificação para a continuidade do seu poder, enquanto as forças revolucionárias encontram inspiração nas doutrinas materialistas.

Entrando, finalmente, nesse espaço largo e de contornos indefinidos que é a direita, encontramos também um amplo leque de concepções sobre o que a define e o que a opõe às esquerdas. Cada uma concebe a seu modo a grande fractura ideológica, e é nestas diferentes concepções que encontramos a característica saliente de cada uma das famílias que habitam a direita.

A direita clássica, contra-revolucionária, sempre se apresentou como a restauradora do equilíbrio natural das sociedades, da forma de organização social ditada pelo jogo das forças que brotam expontâneamente em cada nação ao longo da história, vendo o seu contrário na defesa de formas de organização social inteiramente concebidas nas cabeças dos filósofos, fórmulas abstractas com a ambição de serem aplicadas a todas as nações em qualquer tempo ou lugar.

A direita conservadora vê-se como a depositária da prudência e do senso-comum nas relações sociais, a força que combina harmoniosamente as noções de ordem e progresso, que faz da manutenção dos valores do passado o ponto de partida para a aquisição de novas vantagens sociais, seguindo a lição de Edmund Burke, para quem o conceito de herança resumia um bom princípio de filosofia social: a herança é um património com que se começa a vida, podendo acrescentar-se com outros valores. Por isso o progresso deve ser cumulativo e não revolucionário.

A direita liberal tem os seus valores ligados à propriedade privada e à economia de mercado, devendo a sua instalação na casa comum da direita ao combate que trava contra o socialismo.

A direita esotérica, que goza de certo acolhimento fora da sua família política, vê no mundo moderno a degradação da arte de viver tradicional, a perda de uma sabedoria primordial e a emergência do “reino da quantidade” que vem substituir o antigo “reino da qualidade”. E encara-se como a guardiã dos segredos iniciáticos que devem ser transmitidos às gerações vindouras para elas restaurarem a sociedade hierárquica e sagrada.

É natural que se possa encontrar um traço de união entre todas estas formas de ser da direita, mas a variedade é uma das grandes riquezas desta família que não tem nem a pretensão nem a possibilidade de constituir uma frente comum reunindo liberais, conservadores, nacionalistas, fascistas, tradicionalistas e esoteristas.


Carlos Bobone in Alameda Digital, nº 8

Sem comentários: