28 de dezembro de 2009

Longitude


Em antítese aos meus argumentos publicados no post anterior – a facilidade com se esboroa a história em patéticas teorias de conveniência e conivência política –, eu tenho descoberto nos artigos do investigador Miguel Castelo Branco uma harmonia e correcção de argumentos que são exemplares. Falo das experiências vividas em África e na Ásia pelo investigador, experiências, diria, de alma. Profundas, sem procura de expiação ou complexos. Para quem não sabe o Miguel Castelo Branco é um português natural de Moçambique. Nas suas viagens e vivências estará o segredo para o seu estado sincero e de boa consciência no que escreve – e ensina. A minha tese é corroborada pela semelhança endógena que deparo no comportamento moral e intelectual com o seu irmão Nuno Castelo Branco, também autor no blogge "Estado Sentido".
Para aqueles que retêm na sua memória apenas o que lhes fica em cima da pele ou dou um exemplo do que é viver com aquilo que fica impregnado no âmago:

" (...) Há dias encontrei uma velha professora universitária nos arquivos nacionais. Eu estava na companhia de um americano que ali também faz investigação. A senhora, nos seus setenta anos, perguntou-me o que ali fazia. Naturalmente, estando ela sentada, não fiquei de pé nem me sentei na cadeira vazia que ela me indicara. Vergei as pernas e coloquei-me, como o fazem os thais, num nível inferior à cabeça da professora. O americano, esse ficou de pé, com as manápulas nos bolsos e a mascar pastilha-elástica. No fim, perguntou-me: "que raio de posição a tua, até parece que lhe deves alguma coisa". A típica atitude do ocidental, que olha para os professores como pessoas que não possuem predicados para fazer dinheiro; logo refugiam-so no ensino. São dois mundos."

Miguel Castelo Branco, in Combustões

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

SEmpre exageradamente gentil, João. Obrigado.