30 de janeiro de 2010

Arrotem


A conjugação oportunista de uma subvelação de sargentos e praças, em luta por promoções, e de uns dissidentes do partido republicano do porto, entre eles o maçon Manuel Alves da Veiga, levou a uma ocupação da câmara do porto entre as 07h00 e as 11h00 do dia 31 de janeiro de 1891. Três horas, o tempo suficiente para uma modesta força se organizar e os tirar para fora do dito edifício público. Os arautos e os emergentes na época trataram de escrever sobre o assunto mas o que eles escreveram à data não interessa para nada, para os de hoje, o que interessa é afirmar que "realmente" foi uma "revolução"... e republicana.... Vamos a ver se em 2019 se lembram de celebrar a comemoração da "monarquia do norte" que esteve de pedra e cal, não três horitas, mas várias semanas – até notas foram impressas....
Uma ralé arrotou baixinho no dia 31 de Janeiro de 1891, mas altos arrotos se ouvirão nas comemorações da farsa-ralé.

28 de janeiro de 2010

22 de janeiro de 2010

A ignorância expôe-se


Uma crítica de arte tece algumas considerações sobre uma obra de um artista português em Houston (EUA). No cabeçalho escreve: Cunnilingus, fellatio e sodomia entre senhores brancos e escravos negros: "Debret", de Vasco Araújo, é uma alegoria pós-colonial em que a comédia é apenas a face visível de uma tragédia maior. Li o restante texto. A coerência da escultura, na fotografia, contradiz-se no conteúdo afórico e interpretativo da argumentação: o exercício do poder, a subjugação, o desrespeito – diz o autor, sem se remeter a uma data, local preciso, na base da "intuição" do era-assim-porque-"todos"-sabem-que-era-assim... bem ao gosto do historiador-marxista. Pela ignorância da substância antecipo a falácia dos conteúdos. Senão, um breve ponto: imagino os demais "colonizadores", em 1870, 1890, 1930, 1950, 1973, a explorarem uma negra com cabeleiras de seda e laço (pois então). O Vasco Araújo sabe em que ano anexamos os territórios ultramarinos em África? Por acaso em África a contingência e os portugueses-africanos usavam perucas? Mesmo que o escultor se "debruce" apenas sobre as pinturas de Debret o "teatro" pintado não pode ser descontextualizado nem o escultor pode fazer "prova" na sua extrapolação. Temo que a escultura seja mais um teatro falacioso e oportunista (porque fica sempre bem exigir a catarse pós-colonial, mas sem auscultar os que de lá vieram – claro) numa deriva recambolesca entre o imaginário do séc XVIII e uma imaginação ressabiada.

20 de janeiro de 2010

Mágoas


Sempre aceitei as mágoas. As que eu vivi e sofri. Umas houve que não consegui combater. As minhas mágoas são as dos meus que me precederam, também. Toda a minha vida vivi com a amargura do sofrimento dos que amava. A minha infância foi vivida a ouvir histórias de antepassados que não conheci mas que hoje sei condicionaram as gerações vindouras. Não consigo esquecer as mágoas. Não consigo esquecer a história, mil vezes contada, da fuga do meu bisavô para os Estados-Unidos, logo após a revolução de 5 d' Outubro de 1910: a minha avó, nesse dia, com 6 anos a acenar e a correr atrás da carruagem sabendo que os gritos com que chamava pelo pai se iriam ecoar por toda a sua vida; não consigo esquecer o exemplo de vida dos meus avós que construíram uma família, no princípio da humildade e do altruísmo, sempre com o sentimento de preservar o que haviam herdado – para legar – em vez de esbanjarem e se darem ao gozo do materialismo fácil e primário; a morte da minha mãe, que partiu sem partir; a morte do meu mano Manuel Bento, que herdou o nome do nosso bisavô.
Sempre aprendi com as minhas mágoas, por isso tenho dificuldade em magoar. Mas olho. Vejo que a maior parte das pessoas que me rodeiam são alheias à tragédia, alheias à abgnação. Nunca choraram, nunca sentiram outras lágrimas. Não querem saber do sofrimento alheio com medo de serem contagiadas e arredadas da sua felicidade. Ao invés, fazer sofrer está na ordem do dia, nestes dias sem escrúpulos onde a "liberdade" manda fazer, doa-a-quem-doer.
A experiência de vida já não carrega o sacrifício, a persistência. Temo que a minha forma de sentir seja uma linguagem desadequada. A obrigatoriedade de "estar" feliz é feita à custa de sentimentos vulgares e mesquinhos, da auto-ausência: – Então, está tudo bem? T'á tudo!..

O que é tudo?

18 de janeiro de 2010

Homenagem a João Camossa


No próximo dia 26 de Janeiro, pelas 18h30, o Centro Nacional de Cultura vai fazer uma evocação à figura de João Camossa, um dos fundadores do Centro Nacional de Cultura, em 1945, e do Partido Popular Monárquico, em 1974. João Camossa foi um homem de rara integridade e carácter. Um homem ímpar, muitos me dizem! Nos últimos anos, o seu aspecto indigente e a sua introspecção e afastamento da "modernidade" foleira, que assolapa tudo, empurraram-no para um mundo de vago isolamento. Mas nem por isso perdia o génio e inteligência no discurso. E no afecto. Não era um homem simples. Nunca foi. Mas soube viver na humildade. E muito viveu da caridade. Todos o conheciam como monárquico e não menos ficavam espantados com a disparidade do discurso ante o aspecto formal, bom grado, nos seus inseparáveis sobretudos (mesmo de verão). Não era um monárquico de peruca de seda, nunca foi. Talvez por isso, nele, o contraste era um dos seus argumentos mais válidos – a sua veracidade. Ouvia-se pela sua voz.
No dia 26 de Janeiro – curiosamente 5 dias antes da comemoração do 31 de Janeiro que os Republicanos tanto gostam de recordar – o CNC vai homenagear um cidadão que fez mais pela república do que muitos dos seus pseudo-heróis. Eu conto lá estar, se Deus quiser, com algumas das pequeninas folhas que o meu querido primo João trazia sempre no bolso e gatafunhava e riscava com contas aritméticas infindáveis. O que eu tiver de escrever escreverei nos teus papeis, João, porventura algo para te dizer ou para entreter o nosso tempo. Porque o meu amor também passou a ter o tempo do teu sentimento.

14 de janeiro de 2010

(14 de Janeiro de) 1929 - 1989


Volta com as minhas lágrimas. Quando foste era cedo. Tão cedo que eu não acordei. Ainda sonhava com o lugar onde se entregam as almas carregadas de amor e onde olhares espreitam a porta que deixa entrar e nunca deixa sair.
...
És tu?
Entra mãe. Volta, para que eu possa viver. Viver toda a vida mesmo quando a vida for escondida, por fim.


João. Abril de 1994

in Poesia Escondida, Porto. 2002

9 de janeiro de 2010

A ditadura da "modernidade"


Um sr. Marcelino, um entre muitos que falam de tudo e mais alguma coisa, escreveu estas leves palavras:
No texto chega a referir a "ditadura sobre a família"! Esta "nova ordem social" é um desejo desesperado de sujeitos que desejam impor ordens. O título desta prosa chama-se "dias de modernidade" mas o que eu mais retenho, nesta e noutras "crónicas", é uma oca adesivagem a temas que determinados complexados atribuem como modernos. De facto após um dia outro vem e concerteza o sr. Marcelino encontrará outros "sacrifícios" a serem banidos em prol da modernidade porque só isso importa. Graças a Deus existem parabenizados-visionários como o sr. Louçâ para nos guiar por esse néon.
Não vivo com retrancas ideológicas nem tenho nada contra os homossexuais se quererem "casar", aliás, até acho "fracturante" optarem por um "direito" tradicional muito em desuso pelos heterosexuais...
Vamos a ver o que este mundo fantástico ainda nos trará, refiro-me ao "mundo fantástico" dos Louçâs e Marcelinos, concerteza esta ainda não é a modernidade que desejam. Ainda há muitos atrasados e vulgarizados que devem ser postos na "nova ordem", com muita ou pouca democracia, para que os nossos dias sejam obrigatoriamente uma era moderna.

6 de janeiro de 2010

A PIDE existiu, as FP-25 também e os terroristas carbonários também...


No ano do centenário da república porque é que não nos deviamos lembrar da PIDE? Ela existiu. E do Salazar? Ele existiu. E da prisão do Tarrafal, e de Peniche. Elas lá estão. E da "formiga-Branca"? E do "Grupo dos 13 (carbonários)"? Eles existiram e deixaram sangue à vista. E dos ataques à bomba e dos crimes entre facções republicanas. O que houve mais foram vitimas. E dos assaltos e destruição aos jornais feitos com a conivência da GNR durante a primeira das repúblicas? Foram às centenas. E porque não nos haviamos de lembrar dos assaltos a bancos feitos pelas FP-25? E dos crimes de sangue cometidos pelas FP-25? Eles foram prepertados. Por isso, caro Medeiros Ferreira esteja descansado que eu bem entendo as suas preocupações. Tudo quanto for lembrado de 1910 até hoje foi cometido em República. Rejubilem mas rejubilem sem omissões.

5 de janeiro de 2010

Pequenos "detalhes", grandes desvios


O jornal Público tem no seu sítio on-line um artigozinho sobre o "fim da monarquia". Deve tratar-se de um texto a pedido da comissão Oficial do centenário! Digo, deve, porque o sentido é exacto. O que me pasmou foi não ver-se referido a actuação dos partidários republicanos no descalabro desses tempos. É que é bonito apontar só para um lado... mas a balbúrdia tinha um ventre e nele não dormiam só os fetos dos partidos Regenerador e Progressista, o pior dos gémeos era o estuporado partido republicano. O que gostava era de ver um artigozinho sem hipocrisia, pode ser da mesma autora, com a mesma expressividade sobre a primeira década da República! Ao invés deste que se intitula: "A ingovernabilidade de Portugal na primeira década do século XX" que tal "A ingovernabilidade de Portugal na segunda década do século XX"? É difícil...