20 de janeiro de 2010

Mágoas


Sempre aceitei as mágoas. As que eu vivi e sofri. Umas houve que não consegui combater. As minhas mágoas são as dos meus que me precederam, também. Toda a minha vida vivi com a amargura do sofrimento dos que amava. A minha infância foi vivida a ouvir histórias de antepassados que não conheci mas que hoje sei condicionaram as gerações vindouras. Não consigo esquecer as mágoas. Não consigo esquecer a história, mil vezes contada, da fuga do meu bisavô para os Estados-Unidos, logo após a revolução de 5 d' Outubro de 1910: a minha avó, nesse dia, com 6 anos a acenar e a correr atrás da carruagem sabendo que os gritos com que chamava pelo pai se iriam ecoar por toda a sua vida; não consigo esquecer o exemplo de vida dos meus avós que construíram uma família, no princípio da humildade e do altruísmo, sempre com o sentimento de preservar o que haviam herdado – para legar – em vez de esbanjarem e se darem ao gozo do materialismo fácil e primário; a morte da minha mãe, que partiu sem partir; a morte do meu mano Manuel Bento, que herdou o nome do nosso bisavô.
Sempre aprendi com as minhas mágoas, por isso tenho dificuldade em magoar. Mas olho. Vejo que a maior parte das pessoas que me rodeiam são alheias à tragédia, alheias à abgnação. Nunca choraram, nunca sentiram outras lágrimas. Não querem saber do sofrimento alheio com medo de serem contagiadas e arredadas da sua felicidade. Ao invés, fazer sofrer está na ordem do dia, nestes dias sem escrúpulos onde a "liberdade" manda fazer, doa-a-quem-doer.
A experiência de vida já não carrega o sacrifício, a persistência. Temo que a minha forma de sentir seja uma linguagem desadequada. A obrigatoriedade de "estar" feliz é feita à custa de sentimentos vulgares e mesquinhos, da auto-ausência: – Então, está tudo bem? T'á tudo!..

O que é tudo?

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem pode perguntar. Nem "eles" saberão responder.

cristina ribeiro disse...

" Sempre aprendi com as minhas mágoas, por isso tenho dificuldade em magoar "- abençoado quem assim pensa...