27 de agosto de 2010

Industriar os sentimentos


Não vivo dentro das máquinas. Nunca dei comigo a fazer sorrisos "Optimus" ou a fazer pose com um portátil. Raramente atendo o telemóvel quando estou a falar com alguém. Não me sinto mais moderno por usar um computador nem mais velho por gostar de ler cartas manuscritas antigas. Suspeito muito da razão de alguma tecnologia e mais suspeito da obsessão por certos artefactos, daqueles que nos impingem como adereços necessários à nossa "posição" e felicidade. Tenho para mim que muitas das ferramentas de "comunicação" que usamos foram feitas à medida de sentimentos vis – que movem as maiorias – e não fruto da modernidade "inevitável" do nosso tempo. A inveja, esse "sentimento" merdoso que provocou o pior que a humanidade já evacoou, dá-se também bem na televisão, na internet, na janela por detrás da cortina, nas janelas várias do voyeirismo e muito melhor na janela da política. No fundo, estas "ferramentas" e a sua industria ("industria" política incluida) alimentam-se dos sentimentos e das fraquezas das maiorias. Não pensem que estou a proferir que com as máquinas nos tornamos mais fracos! Não. Estou a falar da vulnerabilidade a que podemos estar sujeitos quando expostos aos super-adereços e aos super-vendedores que vagueiam entre nós com o odor pestilento do fascínio de tanta "modernidade" nos sovacos. Daqueles que maquinalmente nos apontam o futuro sem saberem onde está o passado.

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