18 de outubro de 2010

O país


O país vive atravessado pelas notícias do orçamento de austeridade que urge aprovar. Segundo leio, a chantagem do partido maioritário roça o oportunismo. Nada como fazer crer a inevitabilidade. O que eu acho grave é o autismo sobre a realidade do país. A realidade dos últimos 36 anos. O desemprego nunca diminuiu à custa da produtividade individual mas sim à custa da gordura do estado-empregador. A economia nunca cresceu, o que cresceu foi a finança. O produto interno bruto nunca foi positivo. Acerca disto os políticos, desde esse ano de 1974, só olharam para a superfície. Para a pele das ilusões. Todo e qualquer fuinha abriu as goelas prometendo combater o Portugal "atrasado" pelo "regime-ditadura". Cresci a ouvir isto. O que realmente se passou foi o crescimento de uma classe política grosseira, mal preparada, ávida no domínio público e no interesse privado. Atacaram-se os "poderosos" e os "interesses" do capital. Induziu-se uma boa parte da população na medração fácil da subsídio-dependência, nos direitos adquiridos, nas "lutas" de Abril, na igualdade instantânea, nos direitos fundamentais, na gratuítuidade absoluta de tudo e qualquer pôrra. A política pariu um monstro de direitos, vazio de deveres. A máquina da retórica socialista – tudo pronto para todos – esvaziou a tradição de muitos ofícios e indústrias, fomentou a inércia, assassinou o empreendorismo, patrocinou a escadaria dos "títulos" sociais como meta psicológica do "novo-português". Pelo meio posicionou uma clientela boa de domesticar. A política assaltou o Estado que de res publica só tem o nome; já nem somos Portugal e neste ano difícil celebramos irónicamente 100 anos de "República Portuguesa". Esta sub-região da "comunidade europeia" é hoje um naco muito mais frustrado do que nos anos setenta. Perdeu o que nem a ditadura lhe havia tirado: a esperança. Os políticos de Abril, parte deles uma boa escumalha, esqueceram-se que um país é feito de homens, de famílias, de espaços, de permanências, de espírito, de altruismos, História, de continuidade, de Coragem. Fazer crer que a não aprovação deste "orçamento" é fazer cair o país numa situação muito difícil é mentir e sonegar as razões da nossa crise. Que venha a "situação difícil". Prefiro pagar caro a "minha" derrota do que continuar sem lutar. Desejo um outro país.

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