22 de novembro de 2010

A mão católica


Um conhecido meu está a atravessar sérias dificuldades financeiras. Encontrei-o por acaso e falou-me do seu desemprego de longa duração, do trabalho precário da companheira e da sua filha que vive, tal como eles, em casa dos avós. Apesar de não ser uma pessoa próxima, fico sempre sensibilizado e preocupado. Já lá vão os anos em que uma música ao jantar punha-me sempre bem disposto e longe dos problemas. Lembro-me de alguns argumentos que ouvia desta pessoa em casa de amigos comuns, sempre hirto e firme contra as direitas e os católicos, contra os tradicionalistas, era um simpático "rapaz moderno" e divertido, tão, legitimamente, anti-casamento mas tão, seguro, a favor do casamento gay. Despedi-me triste pela estória mas confiante que a sua vida poderia ter uma melhoria quando ele me disse que a Cáritas e a Casas de S. Vicente Paulo estavam a apoiar nas refeições e na roupa. Tinha a esperança de começar em breve a trabalhar umas horas no Hospital de S. Marcos. Pelo que ouvi o estado-de-esquerda que ele tanto apoiava não lhe dava mais subsídios, a segurança social não lhe dava sopa quente ou roupas, toda a ajuda urgente e premente vinha da mão católica que ele tanto desprezava, essa mesma ala católica que ele achava inútil e formadora de más consciências dava-lhe agora apoio moral e uma esperança de trabalho. Espero sinceramente que a sua vida melhore e que a sua filha tenha um pai que lhe saiba sorrir. Contudo, não espero que, nesse tempo que virá, ouça este conhecido a corrigir o seu discurso acerca do que apelidava de "inquisidores, ladrões, padres chulos". Posso estar enganado.
O que seria deste país, laico e republicano, sem a ajuda fundamental das instituições e pessoas de inspiração cristã? Estou a falar da fome, não a falar de salvar as "consciências", porque a consciência só pode ser salva por nós.

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