29 de novembro de 2010

O manto que nos cobre


Questões de trabalho vão-me levar assiduamente ao Douro vinhateiro nesta estação fria e chuvosa do ano. Hoje saí cedo para um encontro nas altas terras de Alijó. A viagem correu sem problemas no trânsito apesar do frio intenso; ver o Marão, sublime, é um prazer e a sua imponência acalma os desassossegos. Agrada-me a cor escura, acentuada pela neblina, das serras transmontanas. Ao final da manhã na viagem de regresso ao Porto tive uma surpresa, começou a nevar. A queda dos pequenos flocos de neve são propícios à imaginação especialmente nesta época do ano. Se o vento é brando é possível sentir a neve tocar-nos delicadamente. Os primeiros minutos de um nevão são de uma beleza ímpar, tal como se de um desenho se tratasse, o "branco" vai retocando a paisagem paulatinamente e uniformiza os contrastes mais particulares. A paisagem da neve tem uma textura quente. Este deleite, que descrevo, foi interrompido por uma evidência. Se os nevões são fortes e ventosos o aconchego de uma casa impôe-se como guarida. Ora viajar numa auto-estrada (A24) e descobrir o que é um tapete de neve a cobrir a estrada não é agradável. As luzes de "acidente" de uma carrinha de vigilância fez com que eu travasse suavemente.. e parar? O carro não parou apesar de eu já conduzir pelos 60 KlmH. Os segundos que se sucederam entre a minha infrutífera tentativa de travar com o pedal e a eminência de ter de utilizar o travão de mão pareceram horas, naquele belíssimo tapete branco. Acabei com o carro virado em contra-mão na auto-estrada depois de ziguezaguear. Apanhei um susto. Retomei a marcha, lenta, quase parada. Até ao Porto uma viagem de 60 minutos demorou duas horas e meia com constantes nevões, sem marcas que orientassem a condução, sem luzes de aviso nas curvas, sem ver quaisquer limpa-neves, polícia, sinais de orientação fortes nas saídas, qualquer assistência/presença da "Concessionária". Quem projectou a A24 devia saber que montes e colinas ela atravessa, as altitudes que alcança e a sua implantação naquela magnânime natureza. Não culpo a neve que cai e que delicia-nos com o seu manto que nos cobre. Num pais onde se desvia tudo, por pouco e por nada, fechar uma ou outra estrada seria contribuir para a baixa da sinistralidade. Fiquei a pensar nos que atrás de mim passarão naquela auto-estrada cada vez mais invisivel pela neve e mais visível pela negligência dos que por ela deviam fiscalizar.


Sem comentários: