30 de novembro de 2010

O preconceito no tratamento social


Deparei-me com uma conversa muito interessante, um sujeito que conheço profissionalmente dizia-me: se o gajo pensa que o vou tratar por Visconde mais vale ir pró cara...! Bem, eu sorri e disse-lhe que se eu soubesse que determinada pessoa tinha um título nobiliárquico (os descendentes de antigos títulares assumem hoje essa herança na forma afectiva) eu, se existisse um tratamento formal entre os dois, não me obstaria a tratá-lo desse modo. O sujeito reagiu e botou faladura sobre os "direitos" e o fim da monarquia, que agora somos todos iguais, ao que eu lhe disse: felizmente, não somos.
Sempre me ensinaram que a cordialidade é a melhor forma de nos aproximarmos dos outros, de nos apresentarmos, de nos reconhecerem. Tenho na memória que o Presidente Mário Soares, no seu consulado, teve uma correspondência social com o Senhor Marquês de Alorna e o Senhor Marquês de Pombal, e que no trato oficial, sempre se lhes dirigiu pelo título. Desde sempre o tratamento pelos títulos ou denominações de personalidade baseou-se na cordialidade e demonstração de reciprocidade, gentileza, parceria, aproximação. Senhor para cá, Senhor para lá, Doutor para lá, Vª Exª para cá! Por várias razões, não difíceis de intuir, o uso dos títulos a seguir à "implantação" terrorista da República ampliou-se, generalizou-se e tomou a forma de "escadaria" no percurso social. Não há país mais pretensioso no uso dos títulos que a república Portuguesa. Qualquer bacharel é Doutor X, qualquer licenciado é o Senhor Doutor Engenheiro XY. Este abuso desapropriado numa República laica e igualitarista podia pressupor uma lógica compreensão face ao significado das distinções – nobiliárquicas ou não –, as suas origens e, sem complexos, do seu significado enquanto "património" pessoal. Mas não. O uso dos títulos veio demonstrar a arrogância centrifuga da sua utilização e o preconceito de muitos que se "anunciam" pelo prefixo.
Tratar devida pessoa, formalmente, por Dom, Conde, Barão, Doutor, Professor, Comendador ou Senhor é-me igual e não me tira nada, não me rebaixa. Antes pelo contrário.

1 comentário:

EJSantos disse...

Realmente, somos um País de cagões.
Estou mais ou menos à vontade para falar. Tenho duas licenciaturas (uma em engenharia, outra em Direito), e não obrigo ninguém a tratar-me por Sr Dr Eng, ou Engeneiro doutor.
Já vivi 6 anos num País com elevado nivel cultural (a Republica Cg«heca) e nunca vi uma tão grande obsessão com titulos, como em Portugal...