6 de dezembro de 2010

Conseguir ser feliz enquanto choro

Manuel Bento Camossa (à esq.) em Davos, Suíça, 1895, com o barão Schmith

Cresci a ouvir a minha avó materna, com quem vivi, falar da saudade e da perda do seu pai, o meu bisavô Manuel Bento Camossa. Em dois dos livros que publiquei com poesias da minha avó, Maria Amélia Camossa Saldanha, foquei na resenha biográfica o pormenor da despedida do seu pai, que partiu numa carruagem em direcção ao porto de Leixões, e daí num barco que o levaria aos Estados Unidos, em Janeiro de 1911, pelo facto de este episódio ter marcado, decisivamente, todo o percurso da família. Apesar de ter somente 5 anos, o momento da despedida, o aceno e a correria atrás daquela carruagem marcou para sempre a vida da nossa família e, posso dizê-lo, marcou a minha vida. Após a morte da minha avó, em 1996, não descansei à procura da razão dessa partida – principalmente da razão desse não-regresso. Manuel Camossa partiu-fugiu de Portugal por várias razões, uma delas política. Pertencia ao Partido Regenerador-Liberal e era um dos braços de João Franco. Em Outubro de 1910 ocupava o cargo de Administrador do Concelho de Águeda. Em novo estudou na Suíça, engenharia agrónoma, fundou o jornal Independência D'Águeda, fundou uma filarmónica, empresas, escolas públicas, foi pioneiro na venda do leite em garrafa, era um dos mais cobiçados conferencistas sobre o tema da agricultura, em especial na área apicultura. Queria empreender uma revolução agrícola em Portugal, importou máquinas pesadas da Alemanha e Suíça para a tarefa ceifeira e debulho. Foi o fundador do conceito de seguro de saúde agrícola, em 1903, para os seus funcionários na Quinta das Bregadas. Casou. Teve uma filha do seu casamento. Partiu. Não voltou. Em 1999 descobri, através da internet, o nome dele e o seu nº de segurança social inscrito no estado de Nova Iorque. Pesquisando nas fichas de um recenseamento vi que faleceu em 1969. Como foi possível? Como? Não escreveu uma só carta para a sua filha durante a sua vida! O que o fez esquecer? Pode-se esquecer? Este mês, uma nova descoberta e aquela que eu mais perseguia: onde havia falecido. Depois de muitas pesquisas e telefonemas descobri o nome do cemitério onde está sepultado e uma imagem da sua lápide: Lakeside Cemetery, o cemitério hispânico-católico, na cidade de Eagle Lake, no Texas, o mesmo que o da sua mulher americana, Emma (Dehnisch) Camossa!

Crescer é sentir. Muito daquilo que me ensinaram só me parece, neste momento, ajustado a mim. Já não suponho pensar que a minha experiência alguma vez será lição para outrem. Todavia, as minhas certezas não me afiguram mais frágeis pelo facto de a desilusão assolar os meus sentimentos. Muito em breve, irei, iremos – através de mim a minha avó – a Eagle Lake. Para perceber. Para conseguir ser feliz enquanto choro. Se me for permitido, gravarei na sua lápide os versos que Maria Amélia escreveu, nos anos vinte do século passado, ao seu pai e que são uma das frases permanentes da minha vida:

(...)
E, se o Céu decretar que nesta vida
Só possa em sonho ver-te a imagem q'rida
Que me deixe viver sempre a sonhar!

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