9 de dezembro de 2010

Dar

Uma sobrinha da minha mulher disse em tom alto: "as pessoas que ajudam os outros fazem-no por egoísmo". Gosto de ouvir os adolescentes e as suas ideias. Para muito tipo de jovens o prazer de dar é narcisista e se se dá para obter "prazer" está-se a praticar um acto de egoísmo no qual o fruidor é um meio para atingir o fim. Este modo de intuir é pernicioso e perigoso. É o primeiro passo para o afastamento e para o alheamento social. Quando era pequeno alguns pobres tocavam à campainha de minha casa e, de acordo com a hora, a minha mãe já sabia que pessoas nos vinham pedir ajuda. Eu levava um prato de sopa e um pão com carne ou peixe. A minha mãe pedia para eu ficar na soleira da porta a fazer sala, companhia, enquanto as pessoas comiam. Posso dizer que a nossa casa recebia vários pobres, que mendigavam por várias razões, a quem chamávamos: os nossos pobres. Quase sempre a minha mãe procurava saber da saúde e vivência destas pessoas e ficava a falar algum tempo. Eu ouvia e sentia-me feliz.
Podia contar muitas histórias sobre a face altruísta que vivi na minha família; a minha avó materna foi uma das fundadoras da Acção Católica e de vários grupos de leigos (Ligas Independentes Católicas) que emergiram após a II Grande Guerra e numa altura em que a fome e a escassez de alimentos fustigava muita gente. A minha mãe integrou a Juventude Independente e participava, ainda nos anos 70 e 80, em grupos de missão para ajuda dos mais pobres, que hoje abundam com o propósito de serem "IPSS". A felicidade que sempre constatei estava na face dos que recebiam. Um sorriso. Um até amanhã!. Um cumprimento e aceno do outro lado da rua quando nos viam, sem complexos nem "diminutivos" por estarem em dificuldades. Aprendi que um dos maiores dons é o da caridade. O altruísmo. A caridade é um valor formativo, imprescindível para o desenho de uma sociedade equilibrada, um valor preventivo.
Posso afirmar que a pobreza aumentou, e muito, em relação à trinta e tal anos atrás. Os grupos de Leigos (que integravam pessoas católicas mas também ateus) foram desaparecendo, porque, substituídos pelo Estado-Social, "moderno", pleno de ideologia gritante, um hino mudo para a pobreza que vinha do faxismo. Veio o Estado-Social. Veio. E cobriu de betão toda a pobreza-faxista. Hoje olho para a pobreza e vejo outros rostos. Não é a fome, que essa esgana no estômago, é o mostrador de uma bússola sem ponteiro. Vejo o "Estado-Social". Com ele novas frases de Ordem, daquelas frases em que Receber é um direito sem direito a agradecimentos. Percebo o que certa gente diz sobre os que podem ajudar, alguns até dizem que as pessoas de posses são "obrigadas" a dar! Dar o quê? Dinheiro? – Ah, sempre o dinheiro alheio.
A pobreza maior que conheci e que encontro não se reabilita só com euros. Reabilita-se com o coração. E o que pode dar um coração egoísta?

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