14 de janeiro de 2011

Povo que lavas no esgoto


As manifestações de solidariedade são bem vindas e quem as pratica sabe porque o faz. Em Portugal assisto a manifestações de solidariedade todos os dias. A passividade com os governos que têm enterrado a nossa economia é, em si, um acto de solidariedade. A passividade com que vemos a transferência dos políticos do poleiro dos cargos públicos para as empresas semi-públicas e públicas é, em si, um gesto de solidariedade. A passividade e a permissividade com que votamos nos mesmos partidos políticos é, em si, um acto de manifesta solidariedade. Todas estas, entre muitas outras, manifestações de solidariedade vêm embuidas de um atroz complexo de culpa e de uma manifesta disfunção social. Como já várias vezes tenho escrito aqui, a forma como a sociedade portuguesa tem evoluído desde a implantação terrorista da república, em 1910, revela a perda de acuidades sociais essenciais, porque o regime forçou-nos a uma cidadania de disputa em prol da parceria, a posições de conflito ao invés da agregação. A passividade, mansa, o medo, primeiro do terrorismo depois da ditadura, entranhou-se e os "espectadores" foram aumentando de número diminuindo o número de "actores". Esta distância revelou-se dramática a seguir ao 25 de Abril. O surto de partidos e de movimentos não esbateu o abstencionismo social e converteu os "actores" políticos em sacro-santos do nosso sistema a quem tudo é permitido e tudo deve ser perdoado. A linguagem do "anti-fascismo" – como escape e bode para tudo – é um bom exemplo de como a demagogia tomou conta da nossa apatia. Ao invés de nos tornar-mos exigentes ficamos "solidários". A nossa solidariedade é assim como um rio(zinho), um riacho...
Ontem, em Cantanhede, o povo deu mais uma manifestação de solidariedade, onde não faltaram "jovens de aparência moderna". Estas e outras manifestações são tão desprovidas de valores como esse riacho de que falo, esse fio-d'água tolhido pelo desmazelo. As nossas manifestações são um reflexo do país/regime que nos insistem em manter. Nesse mar que foi a nossa língua e paixão desagua agora o estilho deste povo que lava no esgoto.

Sem comentários: