13 de março de 2011

Eu entendo


Eu entendo que os quatro jovens que "marcaram" as manifestações "à rasca" estejam desapontados. Segundo procurei informar-me estão revoltados por não terem emprego e estabilidade contractual. Consideram-se a "geração à rasca". Vê-se que são jovens e não estudaram a história deste país. Vai daí a partir do facebook decidiram marcar manifestações de desagrado! Como anda tudo chateado com a crise umas centenas de milhares de cidadãos saíram de casa com cartazes de todo o género e as inevitáveis bandeiras do terrorismo carbonário. Como aqui já escrevi, nós estamos a viver há décadas várias crises de valores bem mais graves que a coisa económica e algumas delas estão agora a acumular-se. Eu também estou a sentir a "crise" mas nada me fazia participar nestas manifestações. Nunca gostei das moles anónimas, dessas que descem e sobem avenidas, com os punhos erguidos e com "palavras de ordem" do bota-abaixo de chinelo. O vazio das multidões desassossega-me. Pelas notícias, os organizadores não subiram ao palco e conduziram a multidão. Que pena. Eu ter-me-ia sentido desiludido pois era isso que estaria à espera mas eu bem sei que que os jovens que convocaram as manifestações não sabem o querem, sabem quanto querem. A expressão quantitativa destas manifestações na busca ou defesa dos direitos e regalias é irrelevante porque não toca na transformação do regime, antes pelo contrário, é mais do mesmo venenoso também quero, que eu também sou gente. Os jovens têm de perceber que o mundo é feito de imensas alternativas e que a construção de uma sociedade melhor faz-se em casa, em família, nos laços entre pares, na educação, no mérito, na esperança, no sacrifício, no arrojo, no fracasso, na coragem de arriscar sem ter, sem pedir. No altruísmo. A política é feita dessas sombras. Os agiotas que conspurcam a política são cidadãos, jovens ou adultos, que olham para a sociedade como um empreendimento unipessoal e para o Estado como depósito indiferenciado de recursos que urge chupar. Querem desenrascar-se? Comecem por questionar o regime. Questionar o que é a República para além da farsa do "centenário" em que estamos atolados. Exigir um referendo à dita. Exigir uma refundação da arquitectura funcional do estado. Exigir um Estado isento, apartidário, acabar com a rede tentacular de interesses. Exigir uma Constituição sem menções nem pejos ideológicos, um parlamento com cidadãos sérios, uma administração pública com entrada através de concursos públicos transparentes, sem cunhas. Mas isso é algo que a República não parece permitir... e os jovens não têm tempo para pensar... nem estão a exigir... Po outro lado, os pais e avós que participaram na manifestação são os mesmos que votaram nestes políticos e foram nas cantigas de embalar do povo unido. Fizeram muito bem em participar. Muitos dos culpados pela nossa situação manifestaram-se ontem e culpados continuarão pois nas próximas eleições, tenho a certeza, não deixarão de lado o seu clubismo político nem darão o braço a torcer pelo equívoco ideológico em que viveram desde há 36 aninhos. Eu entendo.

4 comentários:

Carlos Gomes disse...

Parece-me que já começaram a questionar o regime... ver em http://auren.blogs.sapo.pt/228772.html

George Sand disse...

Disse aí uma coisa importante: crise de valores!

João Afonso Machado disse...

Caro João:
Estive lá. Eram muitas dezenas de milhar. De todas as idades e convicções politicas. Aquilo foi mais uma manif nacional contra o Governo. Embora com a Esquerda festivaleira (Gel, Falâncio, o velho Vitorino, que não perde uma) a dar nas vistas e aproveitar.

João Amorim disse...

Embora seja salutar a oposição ao "estado de coisas" estes manifestantes querem mais do mesmo, mais conforto, mais "emprego para toda a vida". Querer mudanças a sério é outra coisa.