11 de março de 2011

Intervenção


Ontem, a caminho de mais um soberbo episódio de Poirot, na RTP-Memória, vi o final de uma conversa na RTP1 em que estavam à mesa o jornalista-escritor, que me esqueci do nome, o Rui Vieira Nery, o Fernando Tordo, o Pedro Abrunhosa e o Jel dos não sei quê da Luta. Fiquei abismado com o paleio. Aqueles músicos acham-se os pais-filhos da canção de intervenção. O Tordo a dar lições acerca da "tourada", e tal, o Pedro a falar sobre o Rock e que não lhe interessa a Pop por não ser de intervenção e o Jel a dizer poesia acerca da música "Luta é Alegria" que ganhou o "festival português da canção". Tudo junto deu duas linhas de um discurso confuso e difuso mesmo para os mais atentos e que já tenham intervido no mundo da música. Tenho para mim que a vaidade é um dos maiores defeitos do português. Não saber ser comedido é o pecado mais praticado pelos ateus-artistas e se a isso se juntar a presunção não há água-benta que os redima. Intervenção? Querem eles dizer "do-contra"? Ou "a favor"? Ou "de esquerda"? Será que uma música que não tenha fervor político (politicamente correcta...) é música? Então, para o Tordo, o Abrunhosa e o Jel, cancionem lá este poema de intervenção e ponham-no no top, pá!

Ó justiça dos séculos, ó justiça da História,
inscreve-lhes os nomes no muro da ignomínia,
para que as gerações lhe cuspam na memória!

Fez-se a paz. Portugal
tem um punhal no flanco.
No céu a pomba preta vai pintada de branco.

Crespo, Cunhal, Vasco, Antunes, Soares,
Costa o Judas, Otelo, Rosa, Santos...
Os vendilhões da Pátria! E mais, e tantos!
Hidra de cem cabeças vis alvares!

Fiquem os nomes seus patibulares
no mura da ignomínia, sim! Espantos
dos espantos, mais sinistros de quantos
inda tinhas, História, pra contares!

Monstros num monstro só, porque eles são
os irmãos-siamezes da traição!
Mentirosos, venais, macabros, reles!

Atira-os, ó Desonra, prá buraca
onde a História tem a sua cloaca!
E, ó Nojo, vomita em cima deles!

Nomes de ignóbil tema,
aqui ficam pra sempre,
– porque pra sempre fica este poema!...

(...)

Poema de Amorim de Carvalho
excerto da poesia "Comédia da Morte", Vid. Obra Poética Escolhida. Volume III. A Comédia da Morte e outros Poemas. Lisboa, 1979

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