31 de março de 2011

Mar doce


Este país não é mar doce para viver. Tubarões disfarçados de tainhas abundam em circuito interessado e quanto mais turva for a água melhor é o saque e o ataque. Acho piada à cara de palerma que certas personagens fazem quando são descobertas à tona. Ele é o envelope do sucateiro, o saco azul do partido, a renda amena para amigos de casas da autarquia, os cartões de crédito a bem do serviço à república, o alvará ao empreiteiro a bem do progresso, o pagamento dúbio por acumulações de funções, e por aí dentro. Depois vem o despeito, a lavagem da cara suja, o cuspe para o ar, a conferência de imprensa, o peito inchado em defesa da honra e do bom nome até que os tribunais provem o dolo. Este país não é mar doce. Mais depressa se pesca e se prende um adepto da extrema-direita do que um corrupto-mor que se ponha à sombra das esquerdas. Este país não é mar doce, é um lodo. Basta ver diariamente a quantidade de paineleiros a comentar a situação do país para vermos que, para além de ninguém propor apenas diagnosticar, toda a visão não tem em conta a nossa dimensão, a razão e a capacidade deste povo. Não se exorta o ânimo, porque não há uma referência que nos evoque a pátria permanente, não se exortam as reformas porque só há a defesa dos "direitos" revolucionários, não se exorta pensar o que é este país porque já não nos sentimos soberanos, não se ouvem as vozes pequenas, minoritárias e críticas porque só se ouve a lamuria plutocrata das massas frustradas. Neste lodo habitado por cardumes de escroques só resta ao bom homem preserverar por uma nova maré e recusar-se a pactuar com salvações nacionais de consenso que só pretendem manter a politica predadora dos bens públicos.


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