19 de julho de 2011

A desculpa


Um cão ataca uma pessoa, o dono-cão não assume a culpa, um jornal faz escutas imorais e ilegais, o proprietário não assume a culpa, um telhado está mal construído, o empreiteiro não assume a culpa, uma criança passa privações e abandono, os pais não têm culpa, o país está à beira do abismo, os políticos saídos da governança não assumem a culpa, ou melhor, tudo serve de desculpa (só se assume quem estiver numa onda "fracturante"). É o novo mundo. O mundo da desculpa.
Se uma das crises que vislumbro é o vazio de valores morais, de uma linguagem entendível, válida e validada por uma perspectiva do bom, inerente aos graus antológicos de uma "humanidade", não deixa de ser curioso que as mais recentes gerações de carne humana, que vegeta aos magotes, tende, cada vez mais, em substituir a clássica escala de Valores por substitutos de "valor comercial". O argumento, hoje, é o "carcanhól". As noções de Responsabilidade, Avaliação, Ética e Moral estão a ser sobrepostas pela entidade material. Isto só se passa, e numa paleta ocidental, porque a língua que o novo hOMEM fala só reconhece o presente-imediato e tudo o que vale é o "sentimento" do ego-umbiguismo e das ilusões emocionais: És lindo, És rico, És famoso, És inteligente... Este novo valor-sentimento, quase adquirido desde tenra idade, vem transformando a sociedade e alastra nas cabeças mais jovens como lepra. Um culpado não assume as culpas porque tem medo das consequências mas porque ele sente que não é culpado; antes, fizeram dele uma vitima da Culpa – que não devia existir nesta sociedade de pessoas perfeitas. Tudo é gente de bem (mesmo sem perceberem a axiologia do Bem) e a culpa é do recém-chegado inimigo: o capitalismo; ou outra desculpa qualquer.
Isto está a ir bem, neste mundo de gente que não assume responsabilidades. A culpa vai morrer solteira, solteira mas podre de chatos e doenças venéreas. 



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