8 de julho de 2011

Francisco


Um colega de trabalho da minha mulher, o Francisco, morreu a semana passada. Francisco era um homem atormentado. Enquanto professor fora proibido de ter contacto com os alunos em virtude de uma enorme e complicada depressão. Cumpria trabalho de apoio educativo na escola. A minha mulher trabalhou com ele dois anos. Admirava a sua inteligência e humor. Ela tornou-se amiga e apoiou-o na sua solidão e depressão. Ele vivia só. Era divorciado e estava longe dos filhos. Tudo parecia, contudo, ir melhor para ele. Uma amizade pode ser suave como um fio de novelo mas importante como um cabo de aço. Há uns meses uma directiva obrigou muitos técnicos superiores que trabalhavam em escolas do 1º Ciclo, e que estavam  a ser pagos pelas Câmaras Municipais, a serem recolocados em novas escolas em virtude de as Câmaras não poderem pagar os salários. Francisco viu-se, inesperadamente, compelido a escolher uma outra escola afastando-se do meio, que conhecia à 32 anos, e das pessoas com que se sentia reconfortado. Francisco saiu. E morreu. Suicidou-se, atirando-se da Ponte da Arrábida.
Todos somos vítimas de leis. Tenho dó que a escola não tenha salvaguardado o caso do Francisco pois conhecendo o problema, ela própria, limitou-se na directiva e não impôs uma excepção. 

Que Deus guarde o Francisco.

2 comentários:

George Sand disse...

É muito difícil apioar pessoas com problemas complicados. Provavelmente João, mesmo com todas as condições, o desfecho seria o mesmo.
Claro que é bom que se dê atenção a casos especiais. Mas infelizmente, na vida, não se consegue por vezes ajudar mais...

João Amorim disse...

Nunca saberemos. Fica a mágoa.
Tenho pena dos homens sós.