31 de maio de 2012

Quero, posso e mando


No ido ano de 1988 fui vigia numa praia, belíssima, na Foz do Douro. Foi um ano inesquecível, tinha acabado de fazer o primeiro ano da faculdade e a abertura da "praia da luz" foi uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e fazer praia num local que fazia parte da minha infância. Éramos quatro. Fazíamos vigias alternadamente e nunca estávamos menos que dois. A praia era pequena mas a abertura de um bar fez com que uma movida ocorresse a ver a novidade. Por muito que eu pedisse para não colocarem tendas ou guarda-sóis em frente da área dos equipamentos todos os dias tinha discussões com veraneantes. Ainda que estivesse bem exposto o regulamento da capitania sobre cães, lixo e afins, a areia era ocupada com os nossos amigos e no final do dia a praia era um monte de garrafas e beatas (na altura não existiam os modernos "tractores" que limpam os areais durante a noite). Frequentava a praia um sujeito que se auto-apelidava de "macaco" (cada um sabe de si); era um jovem forte, não ginasticado, com ar para a pândega. Apesar dos avisos, sempre que a bandeira estava vermelha ia dar uns saltos das rochas e acenar de longe. A polícia marítima foi avisada e certo dia lá apareceu. O "macaco" estava no mar num dia nublado e de mar batido. Se eu contar a cena que se passou quando a polícia informou o sujeito que ocorria num crime – e num perigo para a sua própria vida – ninguém duvidaria que estávamos perante uma antevisão do que é hoje o nosso presente, onde a falta de respeito e de autoridade foi gerada pela autoridade que falta, gerada pela propaganda pseudo-emancipadora dirigida aos recalcados da vida. Quanto à cena, ele houve insultos, facas de cozinha, ameaças, primos aos berros, bocas sobre o quero, posso e mando, o isto é tudo nosso. Uns dias após o incidente o  "macaco" deixou de aparecer na pequena praia. Pode ser que se tenha afogado, algures, nas promessas de Abril.

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