22 de junho de 2012

"Ver"


Em 1964 Johan Van Der Keuken realizou um pequeno documentário de 20 minutos intitulado "Blind Kind". É, para mim, um dos melhores documentários, filosóficos, de Keuken. Poucos, como ele, exercitaram tanto a experiência da imagem e da sua relação com os sentimentos. Subtraindo questões de "escola" e política, que pouco me interessam na carreira deste realizador/fotógrafo, as imagens de Keuker levam-nos para uma aprendizagem do sentir e a equacionar a nossa imaginação na percepção da realidade. Neste filme, "Blind Kind", que vi na cinemateca de Lisboa nos anos 90, a realidade das crianças cegas é vista através dos "olhos" de Keuken que "vê" através da menina para quem o mundo era, "apenas", o que alcançava com as mãos. O som, o ruído, torna-se parte da imagem e, aqui, o filme explora magistralmente a noção do que eu chamaria "visão auditiva". Tenho-me lembrado deste filme ultimamente. Face ao "mundo" que nos rodeia, ou que nos querem oferecer, eu, cada vez mais, procuro ver com o meu tacto. Atingir o que eu quero, "apenas", no que procuro e que toco. Sem os sentimentos somos cegos. Vivemos numa era que cativa a cegueira, que somente excita as pupilas com imagens feitas a partir de um pensamento programado, fácil, redondante, para que não ousemos questionar. Não ver é a melhor resposta quando me pergunto se o lugar que procuro está nesta sociedade hedonista e egoísta que prosseguem a construir.

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