21 de agosto de 2012

Casa - Emprego


Segundo um estudo da Universidade de Washington e das Nações Unidas, Portugal terá em 2050 um trabalhador por cada reformado, quer isto dizer que a sustentabilidade da "segurança social" já foi posta em causa e que o sistema de "pensões" não funcionará, provavelmente deixará de ser exequível já em 2040, daqui a 28 anos. Em causa, a taxa de natalidade e a idade das reformas. Sobre este assunto só me quedo por opinar duas coisas que para muitos estarão no desvio destas questões: a invenção da independência automática do indivíduo – não digo da independência social mas da fractura com os laços familiares que advém das políticas e da propaganda de "maioridade juvenil" – e a noção de "emprego" (especialmente o emprego para toda a vida, com as devidas progressões mais que automáticas e devidas na carreira!). Com isto, nas últimas décadas, os jovens filhos d'Abril só pensaram em sair de casa, com ou sem canudo, comprar um apartamento, um cão, um carro, uma moto de ski, dois telemóveis, uma mulher, um filho, basta um filho que a vida é para ser vivida ao máximo e o que interessa é um agregado familiar sem muitas despesas. Posso parecer exagerado mas o que vi acontecer à minha volta foi um movimento de supressão das raízes tradicionais de co-habitação familiar (já sem falar nas relações afectivas) onde as famílias com mais membros poderiam dar origem a linhas com mais descendentes fruto do variado apoio, conjunto, de todos os membros. Esta visão foi dramática nas cidades com a proliferação (que já vinha dos anos 40) da "habitação unifamiliar" e com o apelo publicitário à constituição de "famílias" de 4 membros (no máximo), número ideal para o fisco-pós-II guerra tão carente de impostos e que via no desmembramento dos (médios) agregados familiares, onde só pagava o "cabeça de casal", uma nova forma de duplicar as colectas. Dramáticamente, jovens adultos e adultos estão a voltar, agora, para "casa" dos pais, já idosos, na maioria muito isolados, para terem um tecto e viverem à custa da reforma dos progenitores. A outra questão é a noção de emprego. Tantos anos com a propaganda das liberdades, direitos, disto e direitos daquilo, que já existem duas gerações de indivíduos que só se sentem trabalhadores d'outrém e assim o exigem. Direitos e reforma depois dos 60 para gozar o que descontaram (a maioria da população não descontou quase nada mas exige quase tudo). Para aqueles que sempre viveram com satisfação no trabalho e que o sentiram como complemento do carácter, e da sociabilização, não há idade para reformas, apenas um continuar, com prazer, dependente da forma física e mental. Em geral, quando se pode, trabalhar até tarde inibe muitas doenças e aumenta a independência económica. 
Se houvesse uma noção de trabalho, de orgulho, de parceria, se houvesse uma educação pelo esforço a maioria até perceberia as razões desta crise que nos assola há décadas. Foram anos a ouvir os políticos a exortarem as exigências sem falarem uma só vez das obrigações. Nunca ouvi um ministro a educar para o trabalho por conta própria, pelo empreendorismo para criar postos de trabalho!
As Nações Unidas dizem 2050. São uns óptimistas.

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