14 de setembro de 2012

Decadência


Uma das formas de vermos a decadência de um país é através dos índices de natalidade. Decadência porque falo sobre Portugal. Nas últimas décadas a politica ideológica foi dominada pela febre das regalias e direitos no trabalho. Parece demagógico associar essa "luta" com a questão da natalidade mas o facto de ter havido um alheamento sobre as politicas de família ante as protecções individuais veio fragilizar o cerne do desenvolvimento social que se deve sustentar na família e comunidade e, daí, cidadania. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. Ficava admirado se não o fosse. Temos um número de cidadãos com mais de 65 anos o dobro dos jovens com menos de 15 anos! Em 1981 a percentagem era exactamente a contrária! As conclusões são inúmeras e eu tenho algumas: estamos a envelhecer e isso é bom! Significa que vivemos mais tempo mas, por outro lado, estamos a "envelhecer" na comparação com os nascimentos, dito de outro modo, estamos a desaparecer! Talvez esta crise seja o momento certo para vermos um problema crítico e indisfarçável. Um país que patrocina abortos e não patrocina nascimentos é um país decadente. Paralelamente ao problema da natalidade outro se afigura pela eminência de não haver massa suficiente que aguente um "estado social". Essa nuvem pesada e negra paira, também, nos tumúltos que se ouvem de contestação às medidas do governo e tem várias origens: uma de foro financeiro, legítimo, outra de foro psicológico e de incompreensão com o mundo actual em que vivemos. Vivemos o choque de sobreposição de comportamentos civilizacionais (enquanto noção tecnológica), simultâneos, que se reciclam rápidamente. O mundo muda e os nossos comportamentos estão condicionados por factores de relacionamento social e laboral o que significa que as "lutas" de outrora não podem ser as mesmas das de hoje, até porque o modus de cada indivíduo (singular) flutua por entre valores de moda coast to coast.
Remato com as frases sábias e prudentes de Maria João Valente Rosa sobre o "figurino etário", a natalidade, o envelhecimento e o "estado social", esse bicho gordo porque os "trabalhadores" ainda lutam com foices e martelos:
Para a demógrafa, esta "bomba demográfica" - que, de resto, é extensível à Europa, apesar de Portugal ser já dos países mais envelhecidos do mundo - deveria ter já meio país a repensar o modo como nos organizamos em sociedade. "Por detrás do envelhecimento demográfico estão conquistas que ninguém quer perder - não queremos voltar a morrer mais cedo -, por isso, e sabendo que o envelhecimento está para ficar, temos que assumir que já não faz sentido continuarmos a funcionar como funcionávamos quando tínhamos uma estrutura etária jovem, em que a vida se compartimentava em três ciclos: o da formação, da actividade e da reforma. Hoje, uma pessoa com 65 anos é completamente diferente do que era há 40 ou 50 anos e não faz sentido estarmos a empurrá-la para fora do mercado de trabalho só porque atingiu aquela idade. Por que não então desacelerarmos o ritmo de trabalho ao longo da vida, até para as pessoas se poderem dedicar a outros projectos, designadamente o de ter filhos ou receber mais formação, e prolongarmo-lo na vida até mais tarde?".

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