17 de setembro de 2012

Espaço


Desde que me sinto homem, adulto, que tenho percorrido um caminho cada vez mais remetido ao isolamento. Não sou muito sociável apesar de ter à vontade no relacionamento com o próximo, acusam-me de ser demasiado selectivo, acusam-me de ter o dom de afastar as pessoas. Nunca ninguém me acusou de ser mal criado. Cada vez mais, cada vez mais, me sinto impelido para o seio do meu núcleo familiar, felizmente. A sociedade que me envolve está ferida mas finge estar vivaça; se há uns anos atrás o tema dos "amigos" e outros menos íntimos era o "curtir", o viver sem suor, os nublosos dias que ocorrem entoam conversas de ressabiamento, de desprezo pelos sóbrios, de inveja pelos ousados; mesmo a loiras domésticas, sempre ginasticadas nos melhores ginásios, começam a aprender a falar para criticar a falta de dinheiro, a crise ou os melhores saldos para continuar a manter as boas aparências. O marambismo deu lugar à excitação intelectual sem ideias, uma excitação flácida sem objectivos de fecundação espiritual ou ética. Tantos que se juntam pelos direitos, tão poucos que se juntam pelo país. As massas não lutam pela maioria lutam por si e para si.
Ao fim de muitos anos a viver em consciência sem olhar a modas ou a maiorias, sem vergonha que me apontem por participar em práticas e interesses pouco festivos, sem pudor em falar com entusiasmo dos meus anos de acólito, sem vergonha de participar numa procissão, estar sentado num auditório vazio a ouvir falar de antropologia cultural, ou numa visita guiada pelos jardins do Porto só com 3 pessoas inscritas, sem vergonha em contrariar os argumentos da República e elogiar a monarquia mesmo que com isso muitos me façam sentir um marginal, fui construindo uma planície plantada por mim e onde florescem outras boas espécies não daninhas. É um espaço onde cultivo um reduto propício para a acústica, filtrada sem recurso a preconceitos, e, assim, consigo distinguir uma voz, de outra, de outra, uma melodia interior de uma cantilena vozeira. Talvez por isso, uma só voz me entoe mais forte, qual bomba, do que milhares de gritos e impropérios.


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