28 de outubro de 2012

Sou um desnaturado desnacionalizado


Sei que é um defeito meu, algo imperfeito, concerteza, mas quando confrontado com a morte dos que gosto, busco descobrir o que não descobri em vida dos que partiram. Não que eu não necessite de fruir a essência dos meus escolhidos, dia a dia, mas porque acho que os que amo nunca poderão partir! E nunca aprendo, como se um lapso de memória varresse a consciência. Nos últimos dias tenho lido a vintena de cartas/mails que o Professor Victor Wladimiro generosamente me escreveu e sinto-me assaltado pelos remorsos – pelo destino não me ter feito cruzar coma sua ínclita família mais cedo, por não ter sabido aproveitar melhor a sua cultura e a confiança com que me abriu as suas portas, por não ter conseguido concretizar uma promessa que lhe fiz. 
Sem querer desvendar a sua intimidade ou expôr desabafos que devem ficar na áurea da amizade, não me retraio em citar algumas palavras que o Professor Wladimiro me dirigia. São palavras que me fazem sentir feliz pela recordação:


"Caro João
Desculpe estar a escrever-lhe a uma hora tão imprópria. Faço-o porque tenho a certeza que o João Borges é pessoa de auto-misericórdia e bom senso e não anda por estas horas a "vadiar" pelo computador. Sabe, é mais uma das minhas insónias. (...) Voltando ao Douro. Sou capaz de apanhar a boleia do Nuno e de ir ver, pela última vez, o Douro, uma das duas paisagens portuguesas que mais me impressionam; a outra, talvez já lho tenha dito, é a planura seca e triste do Alentejo… que me faz lembrar as terras secas e ardidas do Sul de Moçambique. Se assim acontecer, sempre arranjarei motivo para lhe dar um abraço, se é que arranja tempo para me oferecer uma míngua de água. Aproveitarei a sua festa para passear pelas cercanias pois, como pode calcular, assustam-me as multidões e já não tenho idade para me fazer convidado, nem para as tais multidões. Queria, a terminar, esclarecer. Não se trata de um qualquer amor filial, o que me leva à Barca d´Alva, pode crer. Não tenho lá ninguém da minha família paterna e se lá houvesse, por certo que nunca lá voltaria. Sou, em verdade, um desnaturado desnacionalizado."

Também eu.





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