19 de novembro de 2012

A internet não será o que queremos


A propósito desta nota dada no Público on line, eu vejo com interesse a entrevista a Jef Jarvis e Clay Shirky, que conheço de vários artigos na Wired. Não teria ficado mal ao jornal ter convidado o Professor Manuel Portela (UC) que tem investigado as culturas digitais. 
Não sendo um empenhado no fenómeno da internet sou um apaixonado e estudioso em antropologia da comunicação estando mais focado no papel das linguagens visuais e gráficas, nos aspectos verbais e de análise da comunicação, especialmente a proxémia e kinésica; nos gestos ilustradores. Outra das coisas que muito me importa é a análise da linguística, a palavra, e no seu desenvolvimento em tipografia e design. Dito isto, não sou um histérico com a internet mas percebo-a bastante bem, trabalho com ela, bem ao ponto de ainda não ter trocado os meus hábitos de pesquisa e grande parte dos meus rituais e prazeres de leitura de livro na mão.  Já uma vez aqui referi, a internet induz-nos na literacia digital que se contrói por hyperlinks e por associação de ideias, afastando-se do raciocínio concreto e profundo. Sendo a reprodução digital processada por texturas gráficas a estética subrepôe-se ao conteúdo e a organização da informação é mentalmente conduzida pela forma de prazer icónico ante a concentração. Por outro lado, vejo com mais optimismo a relação da internet com os diferentes media do que a importância desta nas relações humanas. 
Não nos podemos iludir, a internet fascina os adultos como se fossem crianças, permite processos de "transporte" digital combinatórios e muito eficazes, tira muito tempo aos preguiçosos com ferramentas como a pobre "Wikipédia" mas, ao contrário do que sugere o Público (acerca da "partilha" (!) da vida), a nossa maneira de sentir, a nossa presença, enquanto corpo, não prescinde de canais afectivos de endosso e retorno de mensagem; e não é um mail, um SMS ou um link que poderão substituir o toque numa folha, o cheiro de um perfume numa roupa, um esboço a lápis num guardanapo, o som de uma voz, o ar de uma paisagem, o inconsciente sentir do tempo numa carta, num olhar, num aceno de adeus.


2 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

A Internet não cria eruditos, mas pode aumentar a erudição dos que seguiram essa via, pois quem saiba onde procurar obterá resultados completamente diversos dos clics superficiais.
E pode trazer público aonde ele não chegaria. O que há é que cingi-la ao seu estatuto puramente adjectivo.

Abraço, Meu Caro João

João Amorim disse...

caro Paulo

Nesse sentido, no complemento de informação, a internet é tão valiosa como um índice de fontes. A mais valia da net é o aspecto lúdico e ter tornado um computador num receptor hypermedia. Para cá do aparelho, que utilizemos, a vida é outra e não estou a ver ninguém a fazer amor com uma máquina... Quero dizer, acho que não...

abraço