30 de dezembro de 2012

Para 3013


Não por poucas vezes, sinto-me arrastado para um tempo remoto mais remoto que o meu tempo. Nesse período, onde procuro algumas razões da minha existência, encontro-me noutras paisagens e em vidas que me extravasam mas que moldam a minha natureza e o meu ter. 
Entre muitas outras coisas possuo, por herança, uma pequena argola de guardanapo, em prata, com a inscrição J S. É um objecto que me diz muito por ser um artefacto do quotidiano, tocado, muito usado. A inscrição remonta ao meu tetravô José Saldanha, nascido em 1795. Passou para a vida e uso do seu filho João Saldanha, deste para o seu filho Manuel Bento, para a minha avó Maria Amélia, para a minha mãe Maria Amélia e, por coincidência para outro J, para mim, João, e será, concerteza, para a minha filha Joana Saldanha. Esta cadeia de partilhas existe em tudo o que legamos, que nos legaram, seja um artigo seja o nosso Nome. Esta cadeia, perene quanto frágil, é a principal matéria da nossa estrutura filosófica, quase diria, um infindável pavio espiritual inflamado, reaceso, pelos que nos tocaram. É a constactação desta íntima corrente que nos permite sentir o advir transformado em imaginação. Recordar é imaginar, porventura, a mais satisfatória manifestação do intelecto. O nosso futuro é o nosso passado imaginado, tão imaginado que se quisermos podemos construir o que será a partir do que, agora, fomos.


2 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

A melhor justificação de um Homem é ser um elo da Cadeia. Excelente 2013, porque em 3013, como saiu, só para os Descendentes, se ainda houver Humanidade.

Abraço

João Amorim disse...

caro Paulo

Foi um prazer redescobri-lo no seu novo blogge. Um feliz 2013 e que continue Jovem. Eu aspiro mais um bom 3013 para os meus, e dos outros, descendentes, com outra humanidade.

abraço