8 de janeiro de 2013

No tempo das Cruzadas


Muito poucos saberão sobre a existência da "Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira". Não estou a falar das cruzadas medievais ou da cruzada guerreira de Aljubarrota. Falo da acção cívico-política da Cruzada enquanto lugar a estudo do que foi o tecido ideológico do Portugal de 1918 a 1938. Tal como hoje, o país vivia um surto de conflitos, sérias preocupações sociais, uma grave crise económica e o regime iniciava o período de ditaduras que nos levaria até a ditadura actual, escondida na forma de "democracia". Segundo o professor Castro Leal a Cruzada foi "uma espécie de liga patriótica de elites" 1)! Curiosa observação se olharmos para as "elites" que nos (continuam) tem governado e na linhagem de conductas patrióticas por parte dos ditos. O epíteto principal do  Manifesto da Cruzada (1921) transparece a sua índole: "Por Nun'Álvares, símbolo da Raça! Pela Raça que a sua memória de cavaleiro e santo tutela ainda, para conduzir a novos destinos que a esperam". Poder-se-ia pensar que a coisa tinha sido desenhada pelos faxcistas, conservadores e outros facínoras, mas não! A dimensão do projecto ia do presidente da república ao operário, de laicos a católicos! Entre os subscritores, como hoje está em voga dizer, contam-se Guerra Junqueiro, António José de Almeida, Braamcamp Freire, António Egas Moniz, Alfredo Freire de Andrade, Alfredo de Sousa, Trindade Coelho, Jacinto Nunes, Hermano de Medeiros, tudo bons republicanos apoiantes do Regicídio, concentâneos com Tomás de Mello Breyner, Anselmo de Andrade, António Centeno, Costa Mesquitela, Pequito Rebelo, Sarmento Pereira Brandão, monárquicos constitucionalistas e integralistas, e a maioria da prole governamental, sendo que os presidentes da república eram Presidentes Honorários. António de Oliveira Salazar também aderiu na onda e pertenceu à Direcção Distrital de Coimbra da organização. O ponto alto da realização da Cruzada era a comemoração do "Dia da Raça" a 14 de Agosto. Em 1920 foi aprovado pelo Congresso da República como "dia da festa nacional da República Portuguesa" mas, contudo, nunca chegou a ser um feriado oficial (muito por força da aprovação do dia 10 de Junho, em 1925). Devem os anti-fascistas dormir descansados pois a ideia de Raça, e Dia da Raça, não é parto do Salazar, que já tem mais culpas que cartórios, mas sim de bons homens republicanos por dez, ou mais, costados, de certeza.
O que me apraz referir com estas linhas é a razão da missão ideológica dos evangelizadores desta actual república que por ora nos atiram para ali amanhã por acolá sempre com o pano de fundo do receio da perda da soberania nacional. A Cruzada nasceu também com esse propósito de aglutinar "propósitos"! Vivemos hoje um estado de situações em que os pedidos de união têm uma razão obtusa de ser. Não falo da caridade (sentimento que a III República esmoreceu) mas da união nacional para; principalmente se a união for pedida para salvar um regime em decomposição que devia ser deposto! Por vezes a desunião, afastamento, ajuda a descobrir as eminências dos problemas, por vezes a desunião traz as forças.

1) LEAL, Ernesto Castro, Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira, Gil Vicente, nº 4, 2004.



3 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

Meu Caro João,
há largo tempo que conheço um trabalho importantíssimo de Castro Leal, que integra, ao que creio, muito do sumo dos materiais que nos traz. Também acho que o caminho passa por aglomerar talentos e vontades desgostados com os responsáveis maiores do desastre, como, na I República, todos os quadrantes resistentes ao Costismo opressor. Desde que cada capelinha não desse em puxar a braza à respectiva sardinha...

Abraço

Paulo Cunha Porto disse...

"brasa", perdão

João Amorim disse...

caro Paulo

Portugal está, hoje, mais desunido do que nos anos 20, de XX, tão mais que a cegueira não permite ver alguns cancros óbvios. Neste momento todos olham para o pão em cima da mesa, e é pela política do pão que os situacionistas palram, mas o tempo dirá que o âmago não se saciará só com calorias.

grande abraço