22 de janeiro de 2013

Productividade, trabalho, horas extra e "até amanhã que amanhã também é dia"


Nunca pensei ver tantos estudos "publicados" em tão pouco tempo. Na semana passada o jornal Público apresentou seis notícias baseadas em seis estudos, um por dia. Eu devo ter falhado outros links pois muitos mais haveriam. Como não dou credibilidade a estudos de 4 páginas ou confiáveis por 800 "entrevistas", a experiência de vida continua a ser um bom filtro para tanto estudo.
Face a esta notícia, vejo que o governo tem preparado legislação para debelar um impasse ético que tem arrastado a praxis laboral nas últimas três décadas. Com a revolução dos cravos a noção de "Trabalho" ficou encravada em centenas de páginas da Constituição, pouco física e saudável, portuguesa. Todas essas páginas lidam e conjuram o "trabalho" no acessório e nos "Direitos" de quem "trabalha" mas sem especificar os "Deveres" dos "Trabalhadores". Sendo assim, desde que se cumpra um "horário" o "trabalho" está feito, acabado e até amanhã que amanhã também é dia. E é neste intervalo que entra a estória da "productividade". Esta existe se existirem objectivos mas os "objectivos" só podem ser traçados se houver disposição e capacidade de concretização. A "capacidade" é outra das derivas nacionais. Já sei que me dizem que somos "todos iguais" mas Não somos. A capacidade de trabalho é um factor de empregabilidade com diferentes visões no sector público e no sector privado. No privado o "trabalhador" conta com duas páginas da Constituição, com a vontade do patrão, do "mercado", dos clientes e com a sua. No público, o "trabalhador" conta com duzentas páginas da Constituição, com a vontade dos sindicatos, do serviço público, dos seus dirigentes superiores e com a certeza de que não é despedido. Como a Constituição e os acordos laborais proíbem trabalhar mais horas do que as determinadas (35 horas no público, 40 horas no privado) as horas extras aparecem como um desfecho previsível para quem não se tem de exceder, apenas fazer. E é isso que o governo pretende contrariar: aumentar uma ou duas horas de trabalho para não ter de pagar as inevitáveis horas extra visto não haver dinheiro para as horas reguladas quanto mais para as desreguladas. A "productividade" não aumentará por certo, só acontece por atitude endógena, mas a epidemia das falsas horas extraordinárias será atacada por certo. Devo dizer que conheço pessoalmente muitos funcionários públicos que ficam, muitas vezes, mais tempo que o determinado a trabalhar e outros que no privado nada fazem; eu sempre senti que a "productividade" laboral é resultado de um conjunto de factores que alimentam a nossa inércia, vem da satisfação, dos nossos próprios objectivos, do nosso orgulho, da conduta e disciplina, mesmo quando não executamos o que pretendiamos, da realização afectiva, familiar, até da manutenção de uma boa condição física, e isso não é algo que venha na Constituição, nas palestras dos sindicatos ou nos estudos comparativos por trimestre.


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