8 de maio de 2013

A Maria


Ainda em convalencência, em casa, após uma operação, a minha mulher tem mantido contacto com os seus alunos de apoio pedagógico. Uma das alunas, a Maria, com 15 anos, telefona frequentemente  e pede explicações e apoio no estudo a várias disciplinas. Na falta da professora esta aluna não quer perder as aulas de apoio! De uma família desestruturada, a Maria percorre vários klm até chegar a minha casa. De Gaia ao Porto! Fá-lo após as aulas e ao fim de semana. Para Maria, o estudo é uma solução para sonhar. Para a Maria, a vida já tem demasiadas dificuldades, demasiados défices - dívidas para que se possa queixar dos "exames" e demais tricas. Sem contar com apoios da família esta jovem denota um esforço e uma independência, precoce, deveras, que bem trocaria por uma casa confortável e por um monte de mimos. Mas a vida é como é. Adoro a Teresa por esta entrega abnegada, generosa, e ela agradece a alunos como a Maria por poder sentir-se realizada. Para mim, fora ou dentro dos limites físicos de uma escola, esta deve ser a relação entre professor e aluno. Não só a do professor que dá, por vocação, mas do aluno que pede, que exige, sem imaginar, por ventura, que é a exigência, a pergunta, que faz o Professor. E depois há a ligação afectiva que fica para lá do tempo de aulas. A saudade, a preocupação, a visão de quem constacta o crescimento dos alunos que se afastam como se se aproximassem, permanentemente, do nosso percurso. Se calhar, não todos os alunos, mas uma maioria. Eu sei porque já dei aulas a miúdos e volta e meia a graúdos.
Algumas vezes, na escola da minha filha mais nova, deparo-me com uma antiga professora do meu secundário, agora avó. Um dia vou parar e dizer-lhe que é por causa dela que sou apaixonado por História. Ainda não o disse mas sinto-o sempre que leio um livro ou folheio um caderno de actividades escolares. Se calhar, por isso, não tenho urgência em lhe falar. Um professor pode ficar para sempre na nossa memória, mas só fica para sempre quando nós também nos mantemos, para sempre alunos.

2 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

O amor à causa de muitos Professores é algo que me não deixa de espantar. No Algarve, a minha Mulher viveu um caso semelhante, com docentes a darem-lhe aulas suplementares não-pagas, para compensar o período em que não tinham tido docentes colocados e perante a hostilidade dos colegas que queriam o dezito administrativo e não se preocupavam com entradas na Faculdade.
Parabéns, pois, pela Cara Metade. E quanto aos alunos, dá-me a ideia que muitos dos que tudo têm em bandeja não dão valor. É uma triste lei da vida.

Abraço

João Amorim disse...

Não há nada mais gratificante do que aprender.

abraço,