18 de setembro de 2013

Os pais


Uma notícia avançada ontem ou anteontem insinuava que o "Pai" do "Sistema Nacional de Saúde" (SNS) estava na "lista de espera" por uma cirurgia! Não sei que tipo de emoção procurava transmitir o jornalista, talvez uma excepção às regras de espera. Vem isto a propósito de António Arnaut, pai, falar compulsivamente na sua criação e numa recente entrevista na televisão ter dito que antes dele, e dos seus irmãos políticos, não existia protecção de cuidados de saúde em Portugal. Nada!(?) O António pode ter as melhores intenções e foi com as maiores que "criou" a Lei que fundou o SNS mas uma pequena viagem ao século XIX permite-lhe constactar que nos meados desse período cresceu entre nós o fenómeno  de ajuda mútua, porventura, pouco estudado. Fenómeno associativo, depois interligado com o estado, as primeiras associações Mutualistas inspiraram-se nas friendly societies inglesas e tinham no seu âmbito prestações de socorro financeiro, apoio social, socorros na velhice, socorros na doênça, interrupção no trabalho, orfandade e viuvez das mulheres, sendo estas as características mais comuns que se encontram nas centenas de fundações mutualistas existentes em Portugal antes do séc XX (no Porto, em 1850, andavam pelas 127). A mais antiga parece ser a, portuense, Montepio do Senhor Jesus do Bonfim (1808). Mesmo sabendo que o mutualismo cresceu por nichos e por sectores de trabalho (indústria, comércio, oficinas, profissões liberais) não é displicente associar o movimento mutualista ao crescimento industrial e aos problemas laborais (e sindicais), apesar da maioria das associações não terem um cariz de admissão com critérios de consciência política. Paralelamente ao mutualismo cresciam as Misericórdias e os postos de saúde nas Câmaras Municipais, únicas a terem um médico ao serviço do público sem custos para o cidadão. Com o alargar dos "seguros" mutualistas foram sendo construídos muitos hospitais emanados de Ordens religiosas. O movimento civil parecia andar a par do estado e nesse campo, andou bem. Alguns dos hospitais do estado, que hoje ainda existem, descendem dos finais do séc XV, sendo um dos mais antigos o Hospital de Todos os Santos, em Lisboa, que daria origem ao Hospital de S. José. Entre os mais importantes destacam-se o Hospital de Santo António dos Capuchos, séc XVIII, Hospital de Santo António, no Porto, e Hospital de Coimbra, séc XIX, sem esquecer os hospitais militares, fundados a partir do séc XVI, ou os "hospitais civis" que a I República passou a implementar um pouco por todo o país. A partir dos anos 30 e 40 são construídos os Hospitais-Escola (Porto e Lisboa), inúmeras Maternidades e Centros de Saúde que criam a base dos sistema geral de saúde, – os Serviços Médico-Sociais (SMS), também conhecidos como “postos das caixas" (Previdência). A medicina era o que era (não só em Portugal), a ciência era o que era, a sociedade estava estruturada de acordo com a consciência real e possível para a sua época mas exista (até os anos 50 em que começam a ser criados os "SNS" nos países do norte da Europa) um espírito de altruísmo e de entreajuda que hoje o SNS não consegue abarcar. 
Já se sabe que o "ideal" moderno do indivíduo é querer ser filho do Estado e com isso ter direito a tudo. Quando o "pai" António diz o que diz o que ele quer dizer é que foi o "pai" da lei do proteccionismo socialista de estado, mesmo que o Estado não tenha rendimentos para tantos filhos. Numa coisa eu concordo com o "pai", é necessário um bom SNS para nos tratar do desalento-padecimento provocado pela paternidade que nos governou nos últimos anos.

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