14 de outubro de 2013

"Desafricanização"


No jornal Público, edição papel, deste passado Domingo, 13 de Outubro, um artigo ocupou, logo nas primeiras páginas, com "destaque", a atenção dos leitores. O título "Os relatórios médicos da Diamang como espelho da "desafricanização"". Fiquei na dúvida ante a cumplicidade entre a escrita de Vanessa Rato e nas citações da historiadora Teresa Mendes Flores, autora do estudo antropológico "História da cultura visual da medicina em Portugal" de onde a jornalista extraiu o título do artigo. Espantada, revoltada com o fascismo dos fascistas colonialistas, a jornalista descreve-nos a ciência da autora que caracteriza o homem português em África como um insano explorador que alimenta o "freak show" colonialista e onde "os negros são diminuidos, a paisagem angolana é extirpada da sua africanidade". Estas e mais estas conclusões:" (é) incontornável constatar a "diabolização e inferiorização do negro". Todos estes diamantes literários foram constatados através da visualização, análise e mergulho nas fotografias técnicas de relatórios internos, numa visão de relatório médico, (da década de 60) da empresa Diamang, que operou em Angola desde 1927 até 1975, pela antropologista Mendes Flores.
Não subtraindo qualquer dote às capacidades de Mendes Flores (que nos é apresentada como uma sumidade na "interpretação visual" – quem me dera ter um frente a frente num seminário qualquer, poderia aprender tanto!), o estudo é mais um obsceno sopro na contínua ventania que detrata e escarra no Portugal anterior ao 25 de Abril (para que este não perca a sua utilidade), fustigando a verdade histórica e apresentando o que mereciam ser Adendas como se fossem páginas ilustres da história sociológica moderna que, ao invés da mera subjectividade, deviam ser escritas com imparcialidade. O temor dos "centros de estudos" em contrariar o bailinho do pensamento carneiro e canhoto é sintomático. A investigadora coloca até uma questão que merecia resposta dos milhares de refugiados que fugiram para Lisboa. Diz a Teresa: (os portugueses foram) Um povo amigo?
Sem querer interferir com o "trabalho" da investigadora eu proporia, apenas, nos casos em que cita sobre a "desafricanização do território" e sobre os "apontamentos evocativos de África - não mais do que uma palmeira, um arbusto local... como se não estivessemos em África, mas numa Europa deslocalizada e só muito vagamente exótica" (sic), eu proporia, dizia, o crucial Dicionário de iconografia portuguesa, Lisboa, Instituto para a Alta Cultura, vol. 1, 1947., apenas como achega para a vasta contribuição de fotógrafos portugueses em África (desde os finais do séc. XIX) e das suas reportagens visuais, e, ainda, para não ser incomodativo, o fantástico catálogo da Exposição-Feira de Angola, 1938, com "interpretação visual" do fotógrafo Firmino Marques da Costa. Deste mesmo autor também podemos ver no Arquivo Fotográfico de Lisboa as suas fotografias (COL FMC) que remetem para a viagem de Américo Tomás a Angola, Cabo Verde e Guiné (1968).  Mas, temo que nem assim a autora consiga ver a paisagem africana e a fusão cultural e social, de muitas gerações, da África Portuguesa.

Fotos: Miguel e Nuno Castelo Branco Graça Ferreira com a Maria, o Bernardo, e o cão Barine. Lourenço Marques, 1964/65 
+ Exposição-Feira de Angola, 1938, fotos de Marques da Costa
 

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