1 de abril de 2014

"Centro de Documentação 25 de Abril". Ler e sonhar


Estando a data a aproximar-se, a PIDE do 25 de Abril esgazeia no encalço de peças novas a exibir não se coabindo de utilizar cartuchos impróprios para o safari. Uma das "novidades" é a projecção do Centro de Documentação 25 de Abril que dizem ser "um arquivo documental, fundamental para quem quer estudar a segunda metade do século XX em Portugal". Segundo o seu director, Rui Bebiano, o Centro começou nos primeiros anos a receber "espólios", "dádivas" de documentos ("a rondar os 4 milhões"), cartas, artigos, jornais, artefactos que contribuem para a grandiosidade da efeméride. Coisas sobre o Otelo, a Reforma Agrária, actas, recortes de imprensa sobre o Conselho da Revolução, um manuscrito sobre Salgueiro Maia, veja-se, que dizem ser o "Relatório do Fim do Regime". Também, muitas pastinhas sobre Moçambique, Angola, Guiné. Imagino. Tudo coisas para se colocar na mesinha de cabeceira, ler e sonhar. Presumo que também não faltem os depoimentos sobre as ocupações de casas, ocupações de terras, de indústrias, assaltos a fábricas, assaltos a bancos, o PREC, o MFA, o desaparecimento de munições ligeiras e pesadas dos quarteis, a FP-25, as perseguições políticas, os levantamentos nas escolas, as passagens administrativas dos alunos do propedêutico e das universidades, as intimidações nas empresas públicas, a Nacionalização das melhores empresas do país, o espancamento selectivo de cidadãos não alinhados com a situação, a destruição de património privado e público através das pinturas "de ordem", a instrumentalização ideológica da RTP, das editoras, dos jornais, a mando da esquerda sedenta de uma ditadura estalinista, a violação da correspondência que se dirigia aos meros funcionários das câmaras e bancos, a bonificação "à medida" dos "amigos da revolução", as promoções relâmpago a militares anti-ultramar. Enfim, seria interessante saber se tudo isto faz parte das "dádivas" e da temática dos Fundos de Arquivo e de Documentação.

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