8 de abril de 2014

Esperar

Num exercício de saúde intelectual, Manoel de Oliveira, vai iniciar a rodagem de mais um filme. Aos 104 anos o realizador enceta uma curta-metragem que eu suspeito poderá vir a ser a sua melhor reflexão em cinema  – "O Velho do Restelo, uma reflexão sobre Portugal e a sua História, a partir da situação de crise que o país actualmente vive". E quanto se poderia dizer sobre isso. A sabedoria não é um dom que se adquire pela adição da idade, aliás, é pela idade que se perde muita sabedoria, especialmente a "de pacote", quando esta é uma componente falsa e superficial do nosso envelhecimento. A verdadeira sabedoria cresce com a veracidade com que interpretamos e dialogamos com o mundo, dos afectos às pequenas coisas, tornando-nos prudentes, porque sinceros, não que isso advenha do medo mas pela soma das vicissitudes que nos rodeiam. Manoel de Oliveira sabe em que país vive! E sabe que país quer! A sua frontalidade, que eu ouvi e presenciei através das palavras que dirigiu a S. S. Bento XVI, em Lisboa, é parte da sua linguagem e a sua vida é, em si, um exemplo da sua comunhão com o mundo que percorreu e a que se dedicou. Ao contrário de outros "sábios" de latrina que nos entopem os ouvidos com lamúrias reivindicativas e revoluções caquécticas reumatóides, Manoel de Oliveira ensaia a juventude das palavras através do seu olhar centenário. Se eu tivesse que procurar uma palavra que estivesse de acordo com a "fama" que o realizador granjeou junto da crítica, com o pausar da suas películas, eu diria que esta seria Esperar. E como é sábio, saber esperar. O Velho do Restelo, Esperar para ver.

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