26 de outubro de 2014

Da Manuela Reis a Miguel Castelo Branco


Agora, enquanto trabalho, abeiro-me de um livro cuja "lombada" me soa essencial para este entardecer. Revejo a carinhosa dedicatória ofertiva do meu amigo João Teixeira Lopes (de 1993) e fico-me pela abertura da autora Manuela Reis ("Palavras Metade", Ed. autor, Tipografia Carvalhido, Porto 1993). " Abeira-te das palavras com cuidado, escolhe-as no limite do silêncio – só aquelas que possuam a sabedoria de despertar vozes, selar pactos. Usa-as como se delas dependesse a tua vida, a dos outros, a humanidade inteira". Muito em tão poucas letras. 
 
É, também, tal qual poesia, que sigo a escrita de Miguel Castelo Branco; tão colocada no campo dos afectos como na esfera da ciência histórica, remissiva. Não conheço muitos investigadores que conjugem a capacidade de ensinar/ensaiar articulando ciência, ensaísmo, ironia, metaforismo, coragem, poesia, personalidade, independência – avessa ao pensamento escravo situacionista – no que eu desenharia como franco Conhecimento. Obrigado Miguel.

"Horizontalização"


"(...) Já não há qualquer diferença entre o arrumador de cinema e o ministro, pois qualquer ministro é hoje, sem tirar, igual a qualquer arrumador de cinema. A horizontalização provocou, sem mais, a morte das letras e das artes, o crepúsculo do pensamento e o embotamento da inteligência."

Miguel Castelo Branco

16 de outubro de 2014

Um homem com H grande


Uma deputadeca do BE pediu esclarecimentos ao Ministro da Defesa sobre uma efeméride que se passou hoje e que consistiu no largar das cinzas de Alpoim Calvão ao (seu) mar. A fulana está boquiaberta pois como se pode homenagear "uma figura cujos contornos políticos são tão controversos e divisores na sociedade portuguesa?" Divisores, não, digo eu, unificadores para os que acreditam em Portugal! Da Marinha saiu uma resposta que me faz sentir, ainda que subtilmente, com esperança num futuro feito de Homens e valores: "Às críticas à utilização de meios públicos, a Marinha respondeu esta manhã com um comunicado em que “reafirma todo o seu empenho” na distinção ao antigo comandante e lhe tece rasgados elogios, classificando-o como um “líder nato, um patriota”, um “homem com H grande” que no campo de batalha “era respeitado pelos seus homens e muito mais pelo inimigo”."

5 de outubro de 2014

Do 5 de Outubro de 1910


Do 5 de Outubro de 1143



Com satisfação, sem admiração, constactei que para a imprensa escrita o dia de hoje é um dia como outro qualquer ou não fosse o dia 5 de Outubro. Mas de facto não é. Hoje comemoram-se 871 anos sobre a nossa nacionalidade. Somos, do ponto de vista formal, um dos países mais antigos do mundo. Sobre esta efeméride nada nas capas dos jornais. Por outro lado, também, nada sobre o outro 5 de Outubro, o da revolução carbonária e terrorista, que pela violência destronou a Monarquia constitucional e com a violência manteve a República. Bem sei que durante o dia de hoje lá estarão as televisões a dar mais um tempo de antena ao sr Presidente da coisa e ao sr. presidente da câmara que agora dizem nos vai guiar com a sua Cruz de Lorena pelo caminho da salvação socialista. A pretexto da revolução terrorista, ida há 104 anos, lá estarão a defender os valores – € – e a ética republicana. Ao contrário destas formalidades, ontem, juntaram-se no Largo de Camões, em Lisboa, numerosas pessoas e lançaram-se 871 balões azuis e brancos, as eternas cores deste país. Podem não escrever a notícia nos jornais, podem omitir e sonegar, mas esta manifestação é mais válida, expressiva e contagiante que qualquer ajuntamento oficial em prol da farsa do regime.

(fotos: Ephemera)

4 de outubro de 2014

Alpoim Calvão


Esperei por estes dias para ver se alguém levantava a voz na Assembleia da República sobre o falecimento de Alpoim Calvão. Silêncio. Ao invés, anda tudo tolhido com uma "exposição" execrável de bustos de antigos presidentes da Poucopública. Os heróis, também, meus Heróis, vão morrendo e o palco natural para recitar a suas memórias seriam as "instituições nacionais". Mas, nem uma palavra deve ser dita que contrarie a "história oficial" sobre os últimos 40 anos e falar sobre Alpoim Calvão é falar sobre um Portugal que não cabe nem deve ser citado no discurso complexado, esgotado e domesticador da actual realidade.
Após o Abril de 1974 várias vezes ouvi em casa "valha-nos o Alpoim".
A III República não o mereceu. Alpoim não merecia esta República. Ninguém pode respeitar um país que não exalta os bravos que deram o peito à morte pelo seus.

2 de outubro de 2014

Xuxas


O Gandhi de Lisboa ganhou as "primárias". Os xuxas de sempre, do xuxialismo de sempre, sentam-se à mesa para preparar o repasto de 2015. Quem não se sentar com o Gandhi não xuxa.